Série: A Roda do Tempo - Livro 1
Autor: Robert Jordan
Editora: Intrínseca
Páginas: 783 + Glossário
Ano: 2013 (originalmente publicado em 1990)
Atualmente é muito comum nos depararmos com diversas histórias fantásticas quando entramos em uma livraria qualquer. Com a popularidade crescente de sagas mais atuais, como Guerra dos Tronos, e também das veteranas, como O Senhor dos Anéis, por exemplo, o gênero se tornou ainda mais difundido. Já ouvi relatos de leitores que antes dividiam sua atenção entre distopias e romances voltarem seu olhar para as histórias de fantasia após conhecerem melhor o que o gênero tem a oferecer. A saga A Roda do Tempo, publicada no Brasil pela Intrínseca, não deixa a desejar nesse quesito, apresentando ao leitor uma jornada tão grandiosa que deixaria boquiaberto até o leitor mais crítico. Já aviso que a densidade da trama pode deixar a resenha um tanto cansativa ou incompreensível, mas darei meu melhor para explicá-la sem soltar muitas revelações do enredo ou da grande mitologia da saga.
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sábado, 15 de novembro de 2014
sábado, 6 de abril de 2013
Resenha: As Crônicas de Spiderwick
Editora: Rocco
Volume 1: O Guia de Campo - 114
páginas
Volume 2: A Pedra da Visão - 111
páginas
Volume 3: O Segredo de Lucinda -
114 páginas
Volume 4: A Árvore de Ferro - 125
páginas
Volume 5: A Ira de Mulgarath -
139 páginas
Alguns amores são difíceis de se
consumarem. Passam-se anos de flertes intermináveis e pensamentos
incontroláveis sobre o outro. Há momentos de desespero em que nenhuma limitação
pragmática é capaz de impedir que o desejo de ter, de possuir, de viver o tal
amor se consume. Assim, feito um aparente impossível amor à primeira vista, é
que me apaixonei pelas Crônicas de
Spiderwick. Não foi um sentimento fácil de conter, mas que esteve impedido
de se consumar pelas limitações, sobretudo financeiras da realidade. Então,
abraçando a única alternativa que me restava, resolvi amar, mesmo que fosse aos
poucos. Os cinco livros que compõem As
Crônicas de Spiderwick são pequenas joias e quase possuem o preço de
diamantes. Desprovido de dinheiro suficiente para comprá-los, caí em oração
para que algum dia a grande força sobrenatural que dita as regras das promoções
olhasse por mim e diminuísse os preços. Por sorte ou por milagre, encontrei os
dois primeiros volumes em uma promoção numa livraria dona de preços insólitos.
Mesmo sem perspectiva de comprar os outros volumes, comprei os dois primeiros.
Eram absurdamente lindos. Eu tinha até medo de abri-los. Todos os livros da
série são cheios de detalhes, cuidadosamente ilustrados, como obras primas de
um grande artista. Cheguei até a cogitar a possibilidade de aqueles livros
terem sido feitos artesanalmente e eram tão incríveis que não me surpreenderia
se isso fosse verdade. Somente algum tempo depois de eu ter lido os dois
primeiros é que uma bendita promoção trouxe os três volumes restantes até mim.
Finalmente, eu tinha os cinco volumes.
segunda-feira, 25 de março de 2013
Resenha: Roverandom
Editora: Martins Fontes
Páginas: 127
Roverandom pode parecer mais uma fantasia clássica, com espadas,
dragões e anéis. Ainda mais que em sua capa temos um dragão repousando calmamente
e, talvez, sobre um tesouro. Eu mesmo comprei o livro pensando nisso. Pensava
que seria a aventura de alguma outra trupe de guerreiros e de um ou dois magos.
É preciso dizer também que Roverandom
é um livro muito pouco conhecido de um escritor muitíssimo popular. Qual o
mistério desse livro obscuro? Se ele fosse tão parecido com a saga do anel, ele
seria um pouco mais conhecido ou, talvez, por ser mais daquela mesma história,
as pessoas tenham desprezado o coitado. Enfim, há outra informação importante. Tolkien
escreveu essa história com o inocente intuito de divertir seus filhos e,
naturalmente, ele consegue muito mais do que isso. Rover, o cãozinho que
empresta seu nome ao livro, poderia ser um tagarela e petulante cachorro
falante, como vemos em inúmeras outras obras de animais humanizados, mas a
habilidade narrativa e a surpreendente imaginação do gênio da fantasia
transformam uma fórmula comum, que combina um cachorro surpreendente e uma
jornada insólita, em algo cativante e encantador.
quinta-feira, 14 de março de 2013
[Resenha] Os Pequeninos Borrowers
| Capa nacional do livro |
Autora: Mary Norton
Editora: Martins Fontes
Páginas: 809
Depois de alguns anos de atraso, surgiu no ocidente um filme do
estúdio Ghibli, Karigurashi no Arrietty
ou O Mundo dos Pequeninos, no Brasil.
Naturalmente, decidi assistir e não me surpreendi quando me dei conta de que
era um filme sensacional. Sensível e delicado como poucos outros. Tudo muito
bem feito, desde os personagens até os cenários cuidadosamente detalhados. A
história era sobre uma família de seres pequeninos que viviam tomando coisas
emprestadas dos humanos grandões e, sobretudo, se escondendo a qualquer custo.
Ser visto por um humano era o maior desastre que poderia acontecer à vida de um
pequenino. Terminei o filme com uma dor enorme na alma, porque aqueles minutos
não haviam sido o suficiente ao lado de Arrietty, Pod e Homily, como se alguém
querido tivesse ido embora pra sempre, sem destino certo. Alguns dias depois da inevitável aceitação ter chegado, deparo-me com um livro. Sim, os pequenos
têm um livro: Os Pequeninos Borrowers,
de Mary Norton. Então, descubro que o livro tem 809 páginas e que a história
dos pequeninos é composta por vários romances que originalmente foram
publicados separadamente e que essa edição em português compreende a série completa.
Meu deus! Uma ideia não parava de pipocar em minha cabeça. "O Filme do
estúdio Ghibli fora baseado em apenas um dos livros!" Como não haveria de
ser de outro jeito, comprei o mais rápido que pude e os pequeninos voltaram
para mim.
A história é incrível e eu estava certo, o estúdio Ghibli usou apenas
o primeiro livro para subsidiar seu filme. Ao ler, quando vi que quase todo
o enredo do filme já havia ficado pra trás nas primeiras 100 páginas, minha
barriga esfriava e uma ansiedade quase angustiante de descobrir o que as
próximas mais de 700 páginas guardavam não me davam sossego. Então, as minhas
aventuras com os pequeninos continuaram para além dos 94 minutos que o estúdio
Ghibli me proporcionou.
O livro é dividido em seis partes. A primeira, chamada Os Borrowers, foi usada como base para o
filme do Ghibli. Nela, a família de pequeninos, Pod, o valente e ponderado pai,
Homily, a medrosa e comodista mãe e Arrietty, a destemida e revolucionária
filha, vivem sob o assoalho de um velho casarão. A casa deles, o maior orgulho
de Homily, é engenhosamente mobiliada e sua vida é tranquila e cômoda. Tudo o
que precisam pra viver eles tomam emprestado da casa sobre eles. E essa rotina
sempre lhes deu tudo o que precisavam, até que Arrietty deixa-se levar por seu
espírito de aventura, que não é pequeno, e descobre que o mundo é muito maior
do que eles imaginavam. Então, Arrietty acaba se envolvendo em uma série de
problemas que começam a perturbar a antiga harmonia de sua rotina sob o
assoalho. Toda a confusão culmina na necessidade de os pequeninos se mudarem e
isso, sobretudo para Homily, é algo assombroso. Sem outra saída, eles acabam
indo. Abandonam sua casa, os móveis que Homily tanto amava e todo o conforto
que tinham. Assim, eles partem do casarão para o terreno ao redor dele.
A segunda parte do livro, chamada Os
Borrowers na Terra, conta a primeira aventura dos pequeninos depois que
eles fogem de sua casa sob o assoalho. As coisas não são fáceis para eles
depois dessa mudança. Eles precisam se adaptar à vida no campo, sem seus
antigos confortos e a segurança que tinham. Para Homily, tudo aquilo parece o
apocalipse, enquanto para Arrietty, sua vida nunca fora tão emocionante. Eles
acabam por construir sua casa em uma bota velha e aprendem a viver segundo o
que a natureza tem para lhes oferecer. É nessa época que eles conhecem Spiller,
um pequenino selvagem e arisco, que vive fazendo aparições surpresas para
ajudá-los. A terceira parte, Os Borrowers
na Água, narra as aventuras da família borrower sobre um rio. Sim, eles são
capazes de navegar. Primeiro em uma chaleira velha e, por fim, em uma moita de
galhos no meio de um rio. Para quem imaginava que a vida fora do assoalho seria
impossível, até que essa família de pequeninos está se saindo muito bem. Na quarta
parte, Os Borrowers no Ar, os
pequeninos acabam por conseguirem voar e se envolvem, talvez, na maior
enrascada de suas pequenas vidas. Na última parte da saga dos Borrowers, Os Borrowers em Apuros, parece que a
família conseguiu encontrar um novo lugar onde se estabelecer, mas antigos
problemas continuam perseguindo-os. A última parte do livro trata-se de um
conto, Pobre Inocente, que é uma
espécie de extra e não acrescenta informações sobre Arrietty e sua família.
É impossível não se maravilhar com o nível de detalhes do livro. Mary
Norton descreve, com todo o cuidado, o cotidiano e todos os aparatos dos
pequeninos. E eles, por si só, já são fascinantes. O livro nos mostra como os
pequeninos reutilizam as coisas que tomam emprestadas. Botões, dedais, alfinetes,
tampinhas, agulhas e uma gama enorme de coisas que nós humanos perdemos o tempo
todo e nunca nos perguntamos onde diabos iam parar. Elas estão possivelmente na
casa de algum pequenino, servindo como copos, talhares, espadas, xícaras,
panelas ou qualquer outra coisa necessária para incrementar suas vidas. Com
intuito perfeitamente compreensível, há trechos bastante descritivos em todo o
livro. São trechos essenciais para a composição da história, que não seria a
mesma se o universo dos pequenos não fosse esmiuçado com tantos detalhes.
Inclusive, parte da diversão da leitura vem exatamente da curiosidade de
descobrir como a vida dos pequeninos é, como eles são capazes de sobreviver
apenas do que perdemos ou do que inocentemente nos tomam. A escrita de Mary
Norton sustenta muito bem a narrativa e é capaz de nos enlaçar em um turbilhão
de entusiasmo incomum. A vida dos borrowers é tão simples, tão pequena que nos
faz querer encolher. Seus problemas são tão grandes e simples, suas
necessidades tão ínfimas e instigantes, que a vida de gente grande parece
perder um pouco a graça.
Quando lemos as últimas páginas do livro, encontramos uma inevitável
amargura. Sim, logo depois da última página, já começamos a sentir saudade de
nossos queridos pequeninos. E até hoje não encontrei algo que fosse tão próximo
do nosso mundo e ao mesmo tempo compreendesse um mundo tão fantástico e
perfeitamente escondido sob nossos narizes. Penso em um imperturbável paradoxo.
A grandiosidade dos pequeninos e o quanto eles são capazes de serem maiores do
que nós, suas vidas são maiores, mas mais simples e inocentes do que as nossas
e isso faz com que sejamos menores, pequeninos num mundo de preocupações,
desejos e intrigas assustadoramente gigantes.
terça-feira, 12 de março de 2013
[Resenha] O Pequeno Príncipe
| Pequeno príncipe, pequeno planeta. |
Editora: Agir
páginas: 95
Eis-me aqui, preparado para falar
de um livro o qual me senti tentadíssimo a resenhar. O Pequeno Príncipe é uma obra que dificilmente as pessoas não
leram, ou não conhecem ao menos uma frase. Antoine de Saint-Exupéry é um autor
muito suave e vertical, capaz de atingir a profundidade mais oculta da nossa
alma invadindo-nos pelos olhos (e quando o livro termina eles ficam marejados
de tristeza e alegria; uma bagunça). Esta obra se torna signo da pureza e da
“magesticidade” que a infância tem, e já que a mais imortal das frases é a da
raposa: "tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”,
Exupéry tem uma grande responsabilidade nas costas por nos capturar com a sua
simplicidade.
Trata-se de um principezinho que
vive em outro planeta da galáxia, que na verdade é um asteroide nomeado, pelos
homens da Terra, como B 612. Lá o príncipe vive sozinho, o espaço é pequeno e
ele ama o lugar onde vive. Cuida da terra e meticulosamente livra-se das
sementes de baobá, pois elas seriam o fim do seu lar, se as suas gigantescas
raízes entranhassem pelo chão e vazassem o planeta. O principezinho dos cabelos
dourados planta uma rosa de estimação e com ela conversa, tenta tirar dela os
seus temores, reconhece a sua vaidade enquanto flor e a ampara em todas as suas
necessidades.
Antes de conhecermos o planeta e
a rosa do principezinho, nos deparamos com o narrador da história; um aviador
que fora, pelos adultos, desmotivado do desenho e da pintura ainda na infância,
contando-nos o diálogo que teve com o menino em um pouso forçado que fez pelo
deserto. “Desenha-me um carneiro?”, era o pedido que o príncipe fazia para ele.
E depois de suas inúmeras tentativas frustradas, desenha uma caixa e diz que o
carneiro está lá. Finalmente ele se contenta e fica feliz. E é aí que o nosso
narrador descobre que ele é um menino que “veio do céu”.
A meu ver, o menino-príncipe
carrega consigo o potencial para despertar as verdades das pessoas. Quando ele
visita outros planetas, se depara com outras pessoas e contesta a razão de
serem e de existirem daquela maneira. Um rei ganancioso e que se vê superior a
outras pessoas, mesmo morando em um planeta tão minúsculo quanto ao seu. Um
planeta também pequenino onde mora um vaidoso. E este sempre vê as outras
pessoas como seus admiradores e quer ser sempre o centro das atenções, ser
admirado; o príncipe conversa com ele, ou melhor, tenta conversar, mas o
vaidoso não o dá ouvidos. Os vaidosos não escutam coisas que não sejam elogios.
O príncipe ainda encontra o
planeta de um bêbado, de um homem de negócios, de um acendedor de lampiões e de
um velho que escrevia livros grandes. O bêbado é um paradoxo, porque sofre as
mágoas bebendo e bebe porque sofre as mágoas; o homem de negócios vive para
negociar e não o contrário. Diz-se o dono das estrelas e as conta
incansavelmente, para ser ainda mais rico e comprar mais estrelas; o acendedor
de lampiões é um seguidor compulsivo das regras. Ele se abdica de sua vida para
se dedicar ao regulamento de acender e apagar o lampião. Os dias só duram um
minuto, então ele é encarregado do “acende-apaga” sem descanso; o velho que
escreve livros grossos é um geógrafo e ele não sabe nada sobre a sua terra,
sobre o seu mundo porque afirma ser importante de mais para sair como um
explorador. Talvez se representasse com a teoria sem a prática. Como podemos
descobrir verdades se não a buscarmos nós mesmos?
Entendo que estes planetas em que
moram são pequenos porque o ego destas personagens talvez seja grande demais,
elas estão sempre em busca de algo antinatural que muitas das vezes não tem
sentido algum. Então se pensarmos deste ponto nós afirmaríamos: “Mas o planeta
do príncipe é pequeno. Isso significa que ele também é egoísta”.
Creio que o principezinho
representa a simplicidade e a inocência e por isso a pequenez do seu lar é na
verdade o contraste de todos os outros planetas apresentados acima! Talvez
Saint-Exupéry nos tenha mostrado que nem sempre o que é pequeno é simples, e
nem sempre o que é simples é necessariamente pequeno, o que é curioso para um
livro tão pequenino, porém infinitamente gostoso.
Não teríamos um pouco de cada “homem de pequeno planeta” em nós? Nossas
manias de grandeza não fazem o mundo ficar pequeno demais para duas pessoas?
Finalmente, o príncipe vai ao
sétimo planeta e este é a nossa Terra! E indico esta como sendo a melhor parte
do livro todo. Caso o leitor não tenha ainda desfrutado, espero que leia, pois
nem me arrisco a tentar resumir aqui uma obra de arte tão linda. Se o fizesse
quebraria com certeza a poesia que existe em cada linha.
“Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu
começarei a ser feliz.”
Descubro o paradeiro da minha
felicidade toda vez que me lembro de ter lido “O Pequeno Príncipe”. É como se
ele viesse me visitar sem hora marcada. Sem hora marcada para ser feliz.
Por Leandro Lourenço
Por Leandro Lourenço
segunda-feira, 11 de março de 2013
[Resenha] O Castelo no Ar
Autora: Diana Wynne Jones
Editora: Record
Páginas: 304
Minha leitura de O Castelo no Ar, de Diana Wynne Jones,
foi um tanto peculiar. Ela aconteceu em dois tempos e isso fez toda a
diferença. Quando decidi, pela primeira vez, pegar o livro para ler acho que me
precipitei. Eu não dava muita importância para a leitura e praticamente só lia
quando alguém se atrasava e eu precisava esperar, então o livro era meu passatempo.
Cheguei até a apelidá-lo de "O livro da espera sem fim". Dessa primeira
vez o livro não me cativou. Primeiro pelo clima aladdinesco da história que não
é dos meus preferidos. Achei a história maçante, o ritmo capenga e os
personagens desagradáveis. Eu desgostei tanto que já estava pronto para incluir
Diana à gama de escritores com ideias incríveis, mas que renderam livros ruins.
Afinal de contas, Diana é a autora do livro em que foi o baseado o espetacular O Castelo Animado, do estúdio Ghibli; de
uma série Os Mundos de Crestomanci e
de outros tantos livros ainda não traduzidos para o português. Sem dúvida,
devia haver algum talento em Diana, mas talvez ela houvesse consumido todo esse
talento criando O Castelo Animado.
Pensando assim e completamente desmotivado, larguei o livro mais ou menos com
um terço lido. O marcador ficou lá naquela página por mais de um ano, até que
alguma força sobrenatural (ou natural), fez com que eu resolvesse dar mais uma chance,
a última, para O Castelo no Ar.
Além de toda a vibração
sobrenatural, havia um amigo que vivia dizendo que Diana Wynne Jones era
incrível. E que não era possível que eu, um apreciador de coisas fantásticas e
malucas, não gostasse de O Castelo no Ar.
Enfim, peguei o livro, depois de um ano trocando olhares desconfiados com ele,
tirei o marcador e recomecei. Estava iniciado o segundo tempo. Embora o ar
aladdinesco ainda continuasse me incomodando, logo nas primeiras páginas já
senti uma conexão melhor com o livro. É claro que eu não admitiria, já nas
primeiras páginas, que eu estava enganado, quando comecei a lê-lo pela primeira
vez. Contudo, alguma coisa já me dizia que não haveria outro jeito. O livro é
realmente muito bom. Talvez, fosse o leitor que estava sem talento pra leitura,
talvez fosse a falta de investimento temporal. Antes mesmo da metade do livro,
já estava completamente consciente da injustiça que havia feito e confesso que
até mesmo todas aquelas coisas do Aladdin começaram a me parecer um pouco mais
charmosas.
O livro conta a história de
Abdullah, um mercador de tapetes, que tem sua vida transformada, quando compra
um tapete mágico por uma pechincha. Ele é um rapaz sonhador que, apesar de
todos os infortúnios familiares e pormenores cotidianos, fantasia o mundo a sua
volta e até mesmo seu passado. E para ele, seu passado inventado faz muito mais
sentido do que sua realidade. Subitamente, tudo o que Abdullah imaginou se
aproxima da realidade e aos poucos, sonho e realidade, começam a se tornar um
só. Tudo isso através do tapete mágico e suspeito. O tapete acaba por levar
Abdullah, enquanto estava dormindo, a um jardim suntuoso. E lá ele conhece sua
princesa, Flor da Noite. Esse encontro desencadeia uma série de acontecimentos
que se desdobram na grande aventura da vida de Abdullah. Aventura que parece
ser maior do que sua própria imaginação. Ele conhece um gênio amalucado e
irreverente que realiza desejos com uma malícia inacreditável. Conhece um
viajante misterioso e um país distante. Encontra bichinhos de estimação nada
convencionais e algumas dúzias de princesas.
A história de O Castelo no Ar se passa no mesmo
cenário que O Castelo Animado e eles
até mesmo compartilham alguns personagens. Cronologicamente, O Castelo no Ar vem depois de O Castelo Animado e ainda há mais um
livro desse universo já traduzido, A Casa
dos Muitos Caminhos. Arrisco-me a dizer que O Castelo no Ar não deve nada ao seu antecessor. É uma história
surpreendente com uma dose acertada de loucura e impregnada de magia. E é a
magia de Diana Wynne Jone que encanta. Não há fórmulas, nem rigidez, nem muita
lógica na magia. A magia é caótica como a própria natureza. Há um pouco de
magia em quase qualquer coisa e nem tudo é o que parece, porque num instante
pode deixar de ser ou se tornar outro. A magia é imprevisível e penso que a
magia não poderia ser de outra forma.
A jornada de Abdullah está
repleta de situações divertidas que exemplificam o talento inquestionável de
Diana. Aos poucos, ela vai nos apresentando a personagens caricatos em
situações improváveis, mas que parecem tão humanos e possíveis quanto um mundo
mágico permite. O próprio Abdullah é uma figura deliciosa, que no início, pode até parecer um pouco vaidoso, mas que se
transforma e a cada página descobrimos sua esperteza que concilia inocência
desmedida à coragem de um sonhador. Há todas as princesas com suas
personalidades e trejeitos e aparências. Há o castelo com toda sua magnitude
celestial. Por fim, há personagens memoráveis, como Sophie e Howl.
Apesar de toda a criatividade e
do cenário fascinante, O Castelo no Ar não se faz grande apenas por isso. A
escrita de Diana é igualmente encantadora. As palavras eficientes quase
exageradamente escolhidas delineiam com exatidão o universo que se mostra e ao
mesmo tempo se esconde. Há um equilíbrio espantoso em todo o texto. Ao passo
que o cenário nos é revelado e segredos são esmiuçados, mais e mais surpresas
surgem. Os diálogos são dinâmicos e muito bons, sobretudo as falas de Abdullah,
que não hesita em massagear o ego de quem lhe convém.
Por fim e não poderia ser de
outro jeito, O Castelo no Ar é uma
leitura recomendada a todo amante de fantasia. Desculpo-me por toda e qualquer
maldade que eu tenha dito sobre esse livro. Foi um lapso de inaptidão
literária. Não se engane, como eu me enganei, caso o clima aladdinesco não seja
o seu preferido, há muito mais nessa história do que tapetes, gênios e areia,
há magia, magia de verdade.
Por Fillipe Gontijo
Por Fillipe Gontijo
sábado, 9 de março de 2013
[Resenha] Leviatã – A Missão Secreta
Ilustrações: Keith Thompson
Editora: Galera Record
Páginas: 359 + Posfácio do autor
Você já deve ter se deparado com
o nome de Scott Westerfeld por aí. Ele é o escritor da saga Feios, que é lançada pela Editora Record
(selo Galera) desde 2010, e também de Midnighters.
Contudo, venho aqui para lhes falar sobre outra saga do autor, publicada em
terras tupiniquins em 2012, que tem como primeiro volume o livro Leviatã – A Missão Secreta. Se você leu
a série Feios já deve estar
acostumado com a escrita simples de Westerfeld, que usa de poucas palavras pra
expressar as ações e pensamentos das personagens. Entretanto, diferente de outros
autores que também se utilizam de poucas palavras, Westerfeld consegue ter
domínio pleno sobre o que escreve, não desperdiçando letras para caracterizar seus
cenários ou o teor psicológico das vivências de cada indivíduo. Assim, ele nos
leva a percorrer por uma narrativa steampunk
margeada por uma mitologia unicamente construída, em universo paralelo muito
parecido com o nosso.
É o início da Primeira Guerra
Mundial, e Aleksandar Ferdinand, príncipe do império Austro-Húngaro, está a
brincar com seus soldadinhos em meio a tesouras e pesos de papel, quando é
abordado por Otto Klupp, seu professor de mekânica,
que chega seguido por Conde Volger, seu professor de esgrima. Ambos lhe dizem
que precisam deixar a casa imediatamente e iniciar uma viagem às pressas em
meio à escuridão gelada da noite, seguindo instruções de seu pai, que se
encontra fora, em Sarajevo. Sem saber ao certo o propósito da fuga, Alek
obedece, ainda atormentado pelo fato de que é colocado a pilotar o andador
metálico que até então era proibido até de chegar perto. O andador metálico é
meramente um pequeno item do universo criado por Westerfeld, que dicotomiza a
sociedade em mekanistas e darwinistas.
Os primeiros seguem os preceitos
do Império Austro-Húngaro, que acredita que as máquinas e estruturas metálicas são
as invenções mais revolucionárias do mundo e que com elas poderão vencer a
guerra. Do outro lado estão os darwinistas
que, com a ajuda da genética avançada desenvolvida por um Charles Darwin
alternativo, criaram as bestas vivas mais incríveis, capazes de se locomover
por terra, água e também pelo ar, movidos a gazes naturais – como hidrogênio e
oxigênio, que servem de alimento a todas elas. Nesse segundo cenário
encontra-se Deryn Sharp, uma garota controversa e esperta que se disfarça de
garoto pra poder ingressar na Força Aérea Britânica com a ajuda do irmão, Jaspert.
Logo de início percebe-se que os dois protagonistas estão fadados a
encontrar-se na Leviatã, uma aeronave-monstro
darwinista que sobrevoa os ares
assustando a todos devido a sua peculiar aparência: a de uma colossal baleia
voadora.
A carência de palavras
descritivas do autor talvez seja proposital, pois as belas ilustrações de Keith
Thompson estão a todo o momento trazendo aos olhos do leitor lindos fragmentos
e cenas que retratam o fabuloso mundo criado por Westerfeld. Dessa forma, podemos
ver o Leviatã seguir viagem,
sobrevoando a Grã-Bretanha rumo ao Império Otomano, onde a missão secreta deve
se findar. É importante ressaltar a veracidade do subtítulo do livro, pois a “missão
secreta” continua sendo muito secreta através de toda a narrativa, não sendo nunca
revelada por completo. Sabe-se, entretanto, que a história em questão será
contada em uma trilogia, ainda sem data definida para o lançamento dos dois
últimos volumes por aqui. Por fim, deixo duas imagens que ilustram os universos
mekanista e darwinista e também um link para quem quiser conhecer mais sobre a obra do ilustrador.
Site oficial de Keith Thompson: http://goo.gl/6wydz
Por Jeff Pavanin
(clique na imagem para ampliar)
Site oficial de Keith Thompson: http://goo.gl/6wydz
Por Jeff Pavanin
sexta-feira, 8 de março de 2013
[Resenha] Os Lobos dentro das Paredes
Autor: Neil Gaiman
Ilustrador: Dave McKean
Editora: Rocco
Páginas: 60
Talvez, as nossas vidas não nos
pareçam especiais o suficiente. Talvez, as coisas que fazemos, nossas
preferências e manias, possam não significar nada diante de nossos próprios
olhos. Estamos enganados, quando
pensamos que não há nada de peculiar em nós mesmos. Porque até mesmo em
momentos triviais, como tocar tuba ou encher potes com geleia caseira, há um
pouco de surpresa e alguma coisa capaz de despertar encanto. Assim, a vida de
qualquer um de nós poderia se tornar tão pitoresca quanto a vida de nossa Lucy,
a protagonista de Os Lobos dentro das
Paredes. Nesse livro, Neil Gaiman demonstra
seu talento já consagrado por obras como Coraline
e Sandman ao lado de seu fiel
ilustrador Dave McKean. Os Lobos dentro
das Paredes catalisa a força e a magia que estão escondidas em situações
cotidianas, em pequenos detalhes que certamente poderiam pertencer a vida de
qualquer pessoa. Envolta nesse espírito
de simples encantamento, a história de Lucy nos é contada com a perspicácia de
um contador de histórias orais, daqueles que tem o poder de nos deixar com os
queixos caídos.
A história começa sustentando-se
sobre a exagerada sensibilidade de uma criança que, nesse caso, é capaz de
perceber até mesmo que lobos estão dentro das paredes do antigo casarão onde
mora. Eles faziam ruídos muito particulares, ruídos que não deixavam dúvida
alguma de que eram lobos. Convencida disso e certa de que alguma catástrofe
poderia acontecer, Lucy tenta convencer a todos de que os lobos estão lá, à
espreita, observando e esperando a hora certa de saírem. Primeiro sua mãe que
está perdida entre uma selva de potes de geleia. Depois, seu pai enquanto
tocava sua majestosa tuba e, por fim, seu irmão que naturalmente não desgrudava
do videogame. Para eles, poderia ser qualquer coisa, menos os lobos, porque
todos sabem que se os lobos saírem das paredes, tudo estará acabado, tudo.
Apenas o porquinho de pelúcia acredita em Lucy e a cada instante a invasão dos
lobos parece estar mais próxima.
Lucy acaba por demonstrar toda a
coragem que uma garotinha poderia ter. Enquanto sua família acaba por se
entregar aos problemas, ela não vê outra alternativa, senão lutar. Gaiman deixa
clara a força de sua personagem, sua capacidade de ultrapassar limites e de
agir como se nenhum problema fosse grande o bastante para afugentá-la. Mesmo
com a tal sabedoria popular de que tudo estaria acabado, se os lobos saíssem
das paredes, mesmo essa sendo uma verdade quase inquestionável, Lucy resolve
reverter a situação. Nada, nem mesmo uma grande verdade que todos sabem, seria
capaz de diminuir sua coragem.
Há espalhado por toda história um
ar de impossível, de onírico. No universo daquela família, que age com
naturalidade até mesmo diante da invasão dos lobos, mudar-se para o deserto,
para uma cabana, ou para um balão de ar quente são possibilidades mais viáveis
do que retomarem sua casa. Tudo parece simples e ao mesmo tempo improvável,
quando eles se encontram confinados em seu próprio jardim. Nessa situação, que
poderia ser encarada como crítica, a vida deles simplesmente continua. A mãe
vai trabalhar, o irmão vai para aula e o pai volta para sua tuba preferida. Até
que a noite chega e passar mais uma noite no jardim não lhes parece uma opção confortável.
E é esse desconforto que os faz ouvir a insistente Lucy.
Temos então mais uma parte de um
ciclo. Os lobos assustaram as pessoas de sua casa e agora, são as pessoas que
pretendem expulsar os lobos. Uma inversão de papéis interessante que completa
um ciclo e acaba por humanizar os lobos. Quando a família se esgueira pelas
paredes da casa, da mesma forma como os lobos faziam, ela percebe que os lobos
tornaram-se quase pessoas ou que eles, pelos menos, ansiavam por isso. Um lobo
estava tocando tuba, outro estava jogando videogame. Agora, são as pessoas que
ameaçam sair das paredes e isso, para os lobos, talvez seja quando tudo estará
acabado.
Por fim, ressalto o quanto o
trabalho de Dave McKean é perturbadoramente incrível. As ilustrações são
compostas, como em outros trabalhos do ilustrador, por várias técnicas. McKean usa
fotografias, ilustrações, colagens e faz surgir um universo destoante e
desconjuntado. Tudo isso produz um estranhamento inigualável. Tudo parece fora
do seu lugar, mas ao mesmo tempo como se pudesse haver uma parte de qualquer
coisa naquelas páginas. As ilustrações conseguem evocar a magia de um conto de
fadas, mas que é mesclada ao ar de realidade das fotografias. São tão reais e
tão impossíveis, como a possibilidade de os lobos saírem de dentro das paredes.
Nessa obra, Gaiman e McKean reafirmam-se como grandes contadores de história que são. Deixe-se levar pelas ilustrações ou pelas palavras escolhidas com exatidão, sobretudo deixe-se envolver pela inocência da história e pela profundidade da simplicidade. E não se esqueça de dar ouvidos à Lucy da próxima vez em que ela ouvir alguma coisa, porque é bem possível que mais alguma se esconda dentro das paredes.
Por Fillipe Gontijo
Nessa obra, Gaiman e McKean reafirmam-se como grandes contadores de história que são. Deixe-se levar pelas ilustrações ou pelas palavras escolhidas com exatidão, sobretudo deixe-se envolver pela inocência da história e pela profundidade da simplicidade. E não se esqueça de dar ouvidos à Lucy da próxima vez em que ela ouvir alguma coisa, porque é bem possível que mais alguma se esconda dentro das paredes.
Por Fillipe Gontijo
quinta-feira, 7 de março de 2013
[Resenha] O Nome do Vento
Autor: Patrick Rothfuss
Editora: Sextante
Páginas: 648 + notas
Quando
você olha pra capa de O Nome do Vento
pode até pensar: “Poxa, mais um querendo imitar Game of Thrones”. Se você realmente
pensa assim, escreva isso num papel, amasse e jogue fora. Eu digo isso porque
ouvi comentários desse tipo, de pessoas que evitam livros por pensar que são como cópias de outros.
Isso é pré-julgamento, galera, e é feio. Patrick Rothfuss é um nome que deve
ficar gravado na mente de quem lê alta fantasia assim como o de George R. R.
Martin e Tolkien, isso é fato. Antes que me taquem pedras, não estou comparando
um autor estreante com Tolkien ou qualquer outro veterano, mas acho
imprescindível ressaltar que esse livro, justamente por ser o romance de
estréia do autor, consegue chamar atenção. O objetivo na verdade é bem simples:
contar vida de um homem. Esse homem é Kvothe, o Arcano; Kvothe, o Sem-Sangue ou
mesmo Kvothe, o músico.
Aí você
me pergunta: E que diabos “o nome do vento” tem a ver com tudo isso? Bem,
Kvothe tem o sonho de se tornar um nomeador, capaz de conhecer e dominar os
nomes de todas as coisas. Com o tempo se descobre capaz de invocar o nome do
vento. Isso é alta magia, coisa que poucas pessoas no mundo são capazes de
utilizar. Enfim, não vou me estender e contar todos os detalhes, pois o livro é
grande e guarda bastante coisa complexa – como as disciplinas da Universidade,
que diferem de muitas coisas já lidas por você, eu garanto – e outros mistérios
que vão te deixar puto e te fazer quebrar a cabeça – tal como a famosa porta de
quatro placas no Arquivo, que guarda alguma coisa nunca descoberta por ninguém
ou mesmo os misteriosos Faes e etc, etc, etc. Se você procura um ótimo livro de
alta fantasia, equiparado aos grandes nomes do gênero, eu indico O Nome do Vento a você. Saiba que ele já
tem uma continuação publicada, a qual eu pretendo resenhar em um futuro
próximo. Se você já leu, achou uma bosta ou quer compartilhar sua opinião sobre
ele, é só nos deixar um comentário!
No
início do livro, nos é apresentado um personagem peculiar, o Cronista, que
segue viagem através dos Quatro Cantos da Civilização prestando serviços
àqueles que querem registrar palavras, mas não as conhecem. Após ser roubado,
ele chega até uma simples taberna, situada no centro de uma cidadezinha, onde
conhece o estalajadeiro Kote, um homem estranhamente calmo, de cabelos vivos
como o fogo, que vive a lustrar a madeira do balcão. Dentre os fregueses
circulam histórias – muitas delas tão absurdas que se tornam difíceis de acreditar
– sobre o famoso Kvothe, aquele que era capaz de usar magia como o grande
Taborlin, o lendário feiticeiro. Porém, ninguém sabe seu paradeiro. Ninguém
sabe também que Kvothe está bem ali, do outro lado do balcão servindo-lhes
cerveja. O importante aqui é que o Cronista, com a ajuda de Bast, amigo de
Kote, acaba por descobrir a verdade. Dessa forma, Kvothe (ou Kote) o contrata
para registrar sua verdadeira história de vida, desde a infância, contada em
três partes – dividida nos três dias em que o Cronista ficará hospedado na
pousada. O Nome do Vento retrata o
primeiro dia de relato.
Bom,
com isso você pode até pensar que a história toda é contada pelo personagem, e
que isso pode deixar tudo com um ar chato demais. É... Não é o que acontece. Vamos
conhecer a criança Kvothe sob o olhar dela mesma, em uma narrativa em primeira
pessoa. Não é o meu tipo favorito de narrativa, nem gosto muito pra ser
sincero, mas ao lê-la na escrita do Rothfuss você esquece as churumelas e sente e vê tudo como o ainda
pequeno Kvothe. Sente e vê sua humilde família ser assassinada em uma chacina
comandada pelo Chandriano, uma espécie de grupo negro cercado de mistérios no
qual ninguém acredita por se tratar de histórias para crianças. Quem hoje em
dia acreditaria que o Papai Noel é verdadeiro? Ou mesmo o Coelho da Páscoa? É
essa a sensação que todos têm ao ouvirem sobre o Chandriano da boca de Kvothe.
Tudo ainda é agravado pelo fato dele descender dos Edena Ruh, uma trupe de
artistas muito mal vista pela sociedade e tratada como ladrões de sangue sujo.
É
a partir dessa fatídica noite – e também de um par de cenas muito tristes e
carregadas de emoção – que começamos a conhecer o menino Kvothe realmente. Com
ele vamos encontrar a fome e o frio, perambular como mendigos e ladrões pelo
labirinto de telhados da grande Tarbean, sentir a humildade e bondade de
pessoas capazes de doar o próprio alimento para ajudar a quem precisa. Também
vamos descobrir o forte desejo de vingança e o ódio que ele nutre pelo
Chandriano, que ele viu com os próprios olhos. Assim, já com mais de 13 anos,
ele parte de Tarbean rumo à Universidade, na qual tentará ingressar a fim de se
tornar um Arcanista, mas também com segundas intenções: ter acesso ao Arquivo,
a maior biblioteca dos Quatro Cantos, onde tenciona encontrar mais informações
sobre o Chandriano. E lá ele se depara com mais obstáculos que sua origem
humilde pavorosamente lhe ajuda a obter: desprezo por parte dos filhinhos de
papai, desavenças com um novo arquiinimigo, açoitadas nas costas, altas taxas
de matrícula, negociações com agiotas mortais, dentre outros. Porém, nem só de
desgraça é feita a vida: torna-se amigo de Willem e Simmon e começa a aprender
as dificultosas disciplinas necessárias para se tornar um verdadeiro membro do
Arcanum.
Por Jeff Pavanin
segunda-feira, 4 de março de 2013
[Resenha] A Chave para Rondo
| A Chave para Rondo |
Editora: Fundamento
Páginas: 304
Páginas: 304
A Chave para Rondo é o primeiro livro da nova série de fantasia da autora Emily Roda, da série Deltora Quest. Embora seja cativante, o livro conta com um enredo central relativamente comum, em se tratando de fantasia. Dois primos (Leo Zifkak e Mimi Langlander) descobrem um mundo mágico, chamado Rondo, preso em uma inocente caixinha de música, herdada por Leo de sua excêntrica tia. Há uma série de regras que o dono dessa caixinha precisa seguir e quando os primos desobedecem uma delas, algo improvável acontece. Uma feiticeira azul e dissimulada salta de dentro da caixinha e rapta o inseparável amigo de Mimi, seu cãozinho Brutus. Decidida a resgatar seu bichinho, Mimi acaba por entrar no mundo da caixinha, levando seu temeroso primo consigo. Lá, envolvem-se em uma série de desventuras e conhecem várias figuras pitorescas que os incluem em uma previsível luta compra o mal que assola aquele lugar.
Apesar de ser um universo fantástico incrível, Rondo acaba perdendo força por constituir-se de um entrelaçamento de elementos de contos de fadas clássicos. Fórmula em alta atualmente que, nesse caso, acaba por diluir o brilho e o gosto especial de Rondo. No início da leitura, me surpreendi com o que havia em Rondo e cheguei a associá-lo ao incrível mundo de Oz. Não há semelhanças sólidas entre eles, mas vejo uma consonância entre alguns elementos bizarros de Rondo e os de Oz. Rondo não precisava de sua ligação com os contos de fadas clássicos para ser mágico. Seus elementos originais são bons o suficiente para se sustentarem sem se apoiar tão diretamente nos clássicos.
Diante dessa reconstrução e mescla dos contos de fadas, vale chamar a atenção para a reformulação de alguns personagens, como é o caso da porca Berta. A porca de guarda é inesquecível, com seu ego gigantesco e certa inocência que derrete qualquer coração. Vale lembrar também de dois tipos de seres que habitam Rondo: os floquinhos e os salpicos. São elementos secundários da história, mas que não deixam de serem divertidos e de atribuírem um brilho especial à trama.
Em relação à escrita, o livro é bastante simples. Os capítulos são curtos e cheios de ação. Há muitos diálogos e os esporádicos trechos descritivos são curtos, mas satisfatórios. O livro é composto por uma narrativa direta que é permeada por alguns pensamentos do protagonista. Talvez, alguns trechos poderiam ter sido melhor trabalhados, com intenção de cativar ou mesmo intrigar o leitor com mais eficiência. O texto não é justo com a mágica de Rondo. Aos olhos do leitor e ao longo do texto, há uma sensação de que Rondo é maior e mais encantador do que as palavras da autora são capazes de nos fazer enxergar. Quando o livro acaba, desejamos conhecer mais da mágica de Rondo e que seja realmente mais mágico.
Por Fillipe Gontijo
domingo, 3 de março de 2013
[Resenha] O Clã dos Magos
| Capa nacional de O Clã dos Magos |
Editora: Novo Conceito
Páginas: 434
Páginas: 434
Esse é o primeiro volume da Trilogia do Mago Negro, de Trudi Canavan. Trata-se da primeira trilogia escrita pela autora, que possui mais duas dentre suas obras. Como o próprio título já elucida, a história gira em torno de um Clã de magos que foi criado para proteger a cidade de Irmadin. Tudo parece lindo, a não ser pelo fato de que os habitantes da favela de Irmadin odeiam o Clã. A história começa com uma garota, Sonea, uma das faveladas que, junto com um grupo de amigos, nutre um ódio mortal pelos magos. Certo dia, alguns magos descem até a favela para concluir um evento chamado de “Purificação” – medida tomada pelo Rei para acabar com mendigos e ladrões – quando Sonea e seus amigos começam a tacar pedras no escudo de magia que os magos usam como proteção. Acontece que a pedra que Sonea arremessa, alimentada com tanto ódio que a garota sente, acaba ultrapassando o escudo mágico protetor. Aparentemente, a única coisa capaz de quebrar magia é também magia, fato este que leva os membros do clã a acreditar que Sonea é uma maga selvagem.
A partir disso dá-se início a uma perseguição por Sonea, que, por ser considerada uma maga, não pode perambular pela cidade com os poderes fora de controle. Essa perseguição vai tomar a primeira metade do livro, que é dividido em duas partes. Um ponto que acho importante comentar é que a autora poderia ter escrito em menos de 100 páginas o que custou cerca de 230. A escrita é bem fácil e chatinha, cheia de ações simples e desnecessárias, mas que com o tempo torna-se suportável. Eu demorei pra “pegar no embalo” da história, lia poucas páginas por dia e sem muita vontade, ainda que seja um livro de fantasia, que eu amo. As coisas melhoram na segunda parte do livro, pois até lá já deu pra você simpatizar o suficiente com alguns personagens, dentre eles magos, o que deixa a leitura mais prazerosa. Até fiquei com vontade de saber o que aconteceria nos próximos capítulos, mas ainda assim achei a história um pouco parada e repleta de clichês. Se você começar a ler esperando grandes cenas com feitiços e demonstrações épicas de magia, pare agora porque esse livro não é pra você.
Outro ponto que quero comentar é o palavreado. Eu não sei como é no original em inglês, mas a fala do pessoal da favela é permeada por vários termos que estamos acostumados a ouvir por aqui, como firmeza, trampo,vacilão e cagueta. Não sei se foi escolha do tradutor ou se no texto original as palavras em inglês se equivalem a essas, mas achei bem estranho. Não posso deixar de comentar também a enorme quantidade de erros de português, nome de personagen colocado na frase errada (o que fez parecer com que o personagem estivesse em um diálogo com ele mesmo, sendo que na cena havia duas pessoas – e o cara não tinha problemas mentais) e errinhos medíocres de gênero – várias vezes o Clã foi retratado no feminino. Enfim, se você está esperando um ótimo livro de fantasia, evite O Clã dos Magos.
Resenha por Jeff Pavanin
Resenha por Jeff Pavanin
sábado, 2 de março de 2013
Matéria: Além do peregrino da Alvorada
Todos sabem que a série As Crônicas de Nárnia é famosa no mundo todo, já tendo inclusive três adaptações para o cinema, além de especiais feitos para a televisão e peças de teatro distribuídas ao redor do globo. O que a maioria ainda não sabe é que as histórias de Lewis, de acordo com alguns especialistas, trás em seu âmago questões polêmicas e curiosas, como sua relação com o cristianismo e o sexismo, por exemplo. Esta matéria tem como base um dos livros das Crônicas, A Viagem do Peregrino da Alvorada, e procura exemplificar algumas das questões.
Atenção: O texto pode conter spoilers para quem ainda não leu o livro.
“A Viagem do Peregrino da Alvorada” é o terceiro livro pertencente à série “As Crônicas de Nárnia”, escrito por Clive Staples Lewis (mais conhecido como C. S. Lewis) e foi publicado originalmente no ano de 1952. A edição do livro utilizada para a construção desta resenha foi uma edição brasileira publicada no ano de 2002 no Volume Único contendo as sete obras que completam a série.
A história trata de uma fantasia histórica e mitológica voltada para o público infantil, narrando os acontecimentos da terceira viagem dos irmãos Pevensie ao país de Nárnia. “Nárnia” é um mundo criado pelo autor para servir de cenário às histórias narradas nas sete obras da série, e recebe este nome em homenagem ao país de Nárnia, local onde acontecem a maior parte das histórias. Nesse mundo, muitos animais podem falar, a presença de seres mitológicos é abundante e a magia é comum aos habitantes. A história deste livro é narrada muitos anos após a chamada Era de Ouro de Nárnia, Era esta que é marcada pelo reinado dos Quatro Reis de Nárnia, sendo estes os irmãos Pevensie em sua primeira viagem ao mundo – história narrada no primeiro livro da série em que os irmãos são protagonistas.
O livro de 117 páginas (na edição Volume Único) é dividido em dezesseis capítulos onde o narrador observador conta a história sob sua própria perspectiva, por vezes realizando comentários pertencentes ao próprio autor da obra, e ainda fazendo referências às outras histórias da série.
(clique no link abaixo para ler a matéria completa)
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