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quinta-feira, 28 de março de 2013

Resenha: Terra Sagrada

Autor: Rose Tremain
Editora: Rocco
Páginas: 410

“O silêncio de dois minutos”. Esse é o nome do capítulo que abre Terra Sagrada, sétimo romance de Rose Tremain, e são esses dois importantes minutos que regem a grande temática do livro. Em fevereiro de 1952, a pequena família Ward se reúne, de pé e bem juntinha, na plantação de sua fazenda em Suffolk – zona rural no interior da Inglaterra – em sinal de respeito pela morte do rei Jorge VI. Abaixo de seus pais está a diminuta Mary, protagonista, com 6 anos, pés e mãos pequenos e um rosto redondo que, para sua mãe, lembra um girassol. Mais abaixo, ciscando, está a galinha d’angola de Mary, Marguerite, com quem a menina compartilha a estonteante descoberta que fez durante esses minutos de silêncio: ela não é uma menina, mas um menino.

quinta-feira, 21 de março de 2013

[Resenha] O Incêndio de Troia

Autor: Marion Zimmer Bradley
Editora: Imago
Páginas: 517

Muita gente já deve relacionar o nome de Marion Zimmer Bradley à saga As Brumas de Avalon, talvez por ser sua obra de maior conhecimento. Contudo, a autora é dona de uma ampla gama de obras, que infelizmente não tem, hoje, o reconhecimento nacional que merece. Vários títulos escritos por ela nós podemos encontrar em estantes empoeiradas de qualquer sebo por aí, tais como os inúmeros volumes da série Darkover, que foram originalmente publicados nas décadas passadas e esquecidos no tempo em suas antigas edições. Felizmente, em 2010 a Editora Imago nos presenteou com a nova edição de O Incêndio de Troia, um volume compacto que traz os três volumes da saga: O Chamado de Apolo, O Presente de Afrodite e, por fim, A Destruição de Posêidon – em alguns países os volumes foram publicados separadamente.

Marion nos apresenta, no livro, muito mais do que a sua representação do cenário mitológico do mundo antigo, com um panteão de Deuses e Deusas pra todos os credos; ela nos conta a história de Kassandra, princesa de Troia, que abdica da vida de mulher submissa aos homens para dedicar-se somente ao sacerdócio. Durante sua trajetória, observa-se muito do que já pôde ser lido em As Brumas de Avalon, onde a protagonista Morgana também é uma sacerdotisa. Entretanto, os caminhos seguidos por elas são ligeiramente diferentes. Kassandra é separada de seu irmão gêmeo logo ao nascer, que é mandado ao monte Ida para crescer em segredo entre os camponeses. Ela, contudo, provida da Visão que os Imortais lhe ofereceram, estabelece um vínculo psíquico com o irmão Páris, podendo enxergar através de seus olhos, ainda que estejam separados por uma grande distância.

Após ser mandada para conviver entre as guerreiras amazonas, Kassandra, já mais velha, retorna à Troia decidida a entregar sua vida nas mãos dos Imortais, escolhendo a Apolo, o Senhor do Sol, como o merecedor de sua devoção. É nesse ponto da história que Páris também chega à cidade, fazendo com que o segredo sobre sua existência seja finalmente trazido a público. A partir disso, Kassandra começa a ter visões que prevêem a destruição de Troia, enxergando navios fantasmas na baía, além de fogo e morte. Tentada a avisar seus familiares e pessoas próximas, ela começa a ser considerada uma louca e portadora de maus presságios para casamentos e nascimentos, fazendo com que ninguém acredite em sua palavra. Quando o irmão Páris rouba Helena de Esparta e toma-a como esposa, os akaios, inimigos de Troia, iniciam uma guerra que perdura por muitos anos e por todas as próximas páginas do livro.

Esse resumo pode ter ficado um pouco confuso, mas tudo se deve (além da minha capacidade quase nula em resumir) à minuciosa narrativa de Marion Zimmer Bradley, que nos conta a vida não só de Kassandra, mas também de todos que fazem parte de sua história, com detalhes e muitos diálogos bem construídos. É importante ter em mente que o destino das pessoas e da cidade é sempre colocado nas mãos dos Imortais, que são considerados os grandes responsáveis pela guerra que é travada em terra. Também acho legal comentar que, assim como em As Brumas, é possível notar com extrema clareza o incessante feminismo que a autora emprega em sua narrativa, o que pode deixar a leitura um tanto pedante em algumas passagens. Contudo, isso não chegou a ser um empecilho real para mim.

Apesar de o livro conter pouco mais de 500 páginas, a leitura é complexa e particularmente lenta, fazendo com que o livro pareça ter quase o dobro disso. Algumas características da edição – como o diminuto tamanho das letras, o mínimo espaçamento entre as linhas e o grande número de palavras por página – facilitam essa lentidão. Entretanto, a autora tem uma escrita muito gostosa de acompanhar, pois prioriza os sentimentos e o processo de pensamento que levam às ações decisivas das personagens, a quem nos afeiçoamos facilmente. E, ainda que seu final não tenha me deixado completamente satisfeito, a ampla rede de acontecimentos foi capaz de me prender à leitura como poucos livros conseguiram, transformando O Incêndio de Troia no dono de uma das narrativas mais legais que pude acompanhar.

Obs: Não sou estudioso de mitologia, então não sei afirmar corretamente se os fatos narrados no livro correspondem ao que há na literatura mitológica mundial. Porém, nas minhas pesquisas pela internet pude ver que muito do que a autora escreveu está de acordo com o que é retratado na Odisséia e na Ilíada, os grandes poemas épicos de Homero. Ainda assim, não podemos esquecer de que o livro se trata de uma romantização, podendo reunir fatos deliberadamente modificados ou incluídos através da liberdade criativa da autora.

Por Jeff Pavanin

segunda-feira, 4 de março de 2013

[Resenha] Wolf Hall


Autor: Hilary Mantel
Editora: Record (edição nacional)
Páginas da edição em inglês: 650
Páginas  da edição nacional: 590

Se você frequenta as listas dos mais vendidos ou acompanha algum site de livros de fora (GoodreadsAmazon, etc) então provavelmente já cruzou com esses dois livros por aí: Wolf Hall, que foi lançado em 2009, e teve uma repercussão enorme lá fora e Bring Up the Bodies – foi apenas com o lançamento do segundo volume que todo esse burburinho chegou aos meus olhos. O livro tem sido tão falado ultimamente, que acabou despertando a minha curiosidade ao ver, incessantemente, a cara da Ana Bolena estampada na lista dos mais vendidos.

Uma curiosidade sobre esses livros é que ambos ganharam o Man Booker Prize for Fiction. Pra quem não sabe, o Man Booker Prize é um prêmio literário inglês, considerado um dos mais importantes e respeitados da atualidade. Pois então, quando Wolf Hall foi lançado em 2009, foi considerado uma das opções favoritas ao prêmio e acabou ganhando. Foi aí que ele caiu mesmo na boca do povo (aproveitando do bom e velho poder do adesivinho redondo adicionado à capa enunciando as honrarias que o livro recebeu).

E, depois de três anos de silêncio, quando a Hilary Mantel lançou o segundo volume - o Bring Up the Bodies - , que acabou ganhando o prêmio mais uma vez, renovando toda a fama e aumentando ainda mais a expectativa tida em cima dessa sequela, que o livro começou a repercutir mundialmente, estourando (e mantendo-se) na lista dos best-sellers do mundo.

Vou confessar que eu pedi o livro mais por curiosidade do que interesse. E quando ele finalmente chegou, eu comecei a ler com o pé atrás (pelo simples fato de que eu sempre acabo me decepcionando com livros muito falados e exaltados pela mídia. Não que eu seja do contra, e sim porque minha expectativa sempre fica muito alta e o livro nem chega perto do que eu imaginava que fosse). Mas, pra minha surpresa, eu não apenas adorei o livro: eu me apaixonei por ele, pela história e pela escritora. Esse foi sem dúvidas, não somente o melhor livro que eu li até agora em 2013, mas um dos melhores livros que eu já tive a chance de ler.

É uma coisa antiga a fascinação que as pessoas têm por estórias sobre os Tudors (talvez pelo apelo de novela que permeia a corte do Rei Henrique VIII, mas também pelas atitudes que ele toma no seu reinado que acabaram modificando totalmente a Inglaterra). E agora você se pergunta: nesse mar de adaptações literárias, cinematográficas, qual é o diferencial de Wolf Hall? Vou responder em três partes: