sábado, 9 de março de 2013

[Resenha] Leviatã – A Missão Secreta

A elaborada capa de Leviatã
Autor: Scott Westerfeld
Ilustrações: Keith Thompson
Editora: Galera Record
Páginas: 359 + Posfácio do autor

Você já deve ter se deparado com o nome de Scott Westerfeld por aí. Ele é o escritor da saga Feios, que é lançada pela Editora Record (selo Galera) desde 2010, e também de Midnighters. Contudo, venho aqui para lhes falar sobre outra saga do autor, publicada em terras tupiniquins em 2012, que tem como primeiro volume o livro Leviatã – A Missão Secreta. Se você leu a série Feios já deve estar acostumado com a escrita simples de Westerfeld, que usa de poucas palavras pra expressar as ações e pensamentos das personagens. Entretanto, diferente de outros autores que também se utilizam de poucas palavras, Westerfeld consegue ter domínio pleno sobre o que escreve, não desperdiçando letras para caracterizar seus cenários ou o teor psicológico das vivências de cada indivíduo. Assim, ele nos leva a percorrer por uma narrativa steampunk margeada por uma mitologia unicamente construída, em universo paralelo muito parecido com o nosso.

É o início da Primeira Guerra Mundial, e Aleksandar Ferdinand, príncipe do império Austro-Húngaro, está a brincar com seus soldadinhos em meio a tesouras e pesos de papel, quando é abordado por Otto Klupp, seu professor de mekânica, que chega seguido por Conde Volger, seu professor de esgrima. Ambos lhe dizem que precisam deixar a casa imediatamente e iniciar uma viagem às pressas em meio à escuridão gelada da noite, seguindo instruções de seu pai, que se encontra fora, em Sarajevo. Sem saber ao certo o propósito da fuga, Alek obedece, ainda atormentado pelo fato de que é colocado a pilotar o andador metálico que até então era proibido até de chegar perto. O andador metálico é meramente um pequeno item do universo criado por Westerfeld, que dicotomiza a sociedade em mekanistas e darwinistas.

Os primeiros seguem os preceitos do Império Austro-Húngaro, que acredita que as máquinas e estruturas metálicas são as invenções mais revolucionárias do mundo e que com elas poderão vencer a guerra. Do outro lado estão os darwinistas que, com a ajuda da genética avançada desenvolvida por um Charles Darwin alternativo, criaram as bestas vivas mais incríveis, capazes de se locomover por terra, água e também pelo ar, movidos a gazes naturais – como hidrogênio e oxigênio, que servem de alimento a todas elas. Nesse segundo cenário encontra-se Deryn Sharp, uma garota controversa e esperta que se disfarça de garoto pra poder ingressar na Força Aérea Britânica com a ajuda do irmão, Jaspert. Logo de início percebe-se que os dois protagonistas estão fadados a encontrar-se na Leviatã, uma aeronave-monstro darwinista que sobrevoa os ares assustando a todos devido a sua peculiar aparência: a de uma colossal baleia voadora.

A carência de palavras descritivas do autor talvez seja proposital, pois as belas ilustrações de Keith Thompson estão a todo o momento trazendo aos olhos do leitor lindos fragmentos e cenas que retratam o fabuloso mundo criado por Westerfeld. Dessa forma, podemos ver o Leviatã seguir viagem, sobrevoando a Grã-Bretanha rumo ao Império Otomano, onde a missão secreta deve se findar. É importante ressaltar a veracidade do subtítulo do livro, pois a “missão secreta” continua sendo muito secreta através de toda a narrativa, não sendo nunca revelada por completo. Sabe-se, entretanto, que a história em questão será contada em uma trilogia, ainda sem data definida para o lançamento dos dois últimos volumes por aqui. Por fim, deixo duas imagens que ilustram os universos mekanista e darwinista e também um link para quem quiser conhecer mais sobre a obra do ilustrador.

(clique na imagem para ampliar)


Site oficial de Keith Thompson: http://goo.gl/6wydz

Por Jeff Pavanin

sexta-feira, 8 de março de 2013

[Resenha] Clarissa

Capa da Companhia de Bolso
Autor: Érico Veríssimo
Editora: Círculo do Livro (edição lida)
Páginas: 194

Fiquei algum tempo decidindo se Clarissa seria realmente a minha próxima escolha pra resenhar. Como esse é um dos meus livros favoritos, fico sem palavras pra conseguir descrever bem o que se passa nessa história. Eu poderia vir aqui e dizer que é simplesmente uma crônica sobre o cotidiano de Clarissa, mas estaria mentindo, de certa forma. Veríssimo se preocupa, sim, em contar a infância (ou pré-adolescência) da menina Clarissa através dos fatos de seu dia-a-dia, mas não se esquecendo de espelhar aos olhos dela as histórias de todas as outras pessoas que a cerca. A protagonista nos é apresentada inicialmente a partir da perspectiva de Amaro, um músico recluso que vive na pensão de Dona Zina, pensão esta que serve de cenário para a história toda. O músico nutre por Clarissa uma paixão secreta, tomando-a como uma musa para suas inspirações nos momentos de reclusão, quando toca seu piano.

Filha de fazendeiros, a menina foi à Porto Alegre buscando completar os estudos, com o sonho de se tornar professora, e encontrou lar na pensão da tia Eufrasina juntamente com outros entes que ali vivem, discutindo política, o tempo e fofocando sobre a vida dos vizinhos ricos. Nesse ambiente triste, Clarissa se depara com realidades que sua simplicidade infantil antes desconhecia, tal como a infidelidade de Ondina a seu marido Batata, a difícil deficiência do vizinho Tonico e o sofrimento de sua mãe, as lamentações da viúva Dona Tatá, cuja pobreza contrasta com a abundância material dos vizinhos da frente. Ainda vivem na pensão outras figurinhas, como o judeu Levinsky e sua constante crítica à política atual e ao cristianismo e também o já citado Amaro, o músico solitário e misterioso. A vida literalmente passa diante dos olhos de Clarissa, que a observa e questiona, filosofando sobre a existência à sua própria maneira.

Pra mim é maravilhosa a simplicidade com que Érico Veríssimo retrata o cotidiano da pensão de Dona Zina, traduzida em frases simples que carregam um tradicionalismo despreocupado, tal como se observa em algumas passagens:

“Ó Belmira! Me traz um café bem gostoso. E anda ligeiro, meu bem, porque tenho o que fazer.”

“Não há dúvida: a primavera chegou. Os pessegueiros estão floridos, as glicínias se debruçam sobre o muro, o menino doente já mostra no rosto magro a sombra dum sorriso.”

Também não me passa batido o leve tom existencialista que Veríssimo despeja em palavras para passar ao leitor exatamente o que pensam e sentem os indivíduos que residem na pensão, tal como pode ser observado em alguns trechos como:

“Nos olhos do menino havia uma saudade impossível, a saudade de uma terra nunca vista. Um dia – quem sabe? – um dia um vento bom ou mau passa e leva a gente. Um dia...”

“Clarissa entrega-se a novas reflexões... Os homens são maus. Criam os pintos, dão-lhes de comer – farelo, água, milho. Eles crescem, ficam galinhas, andam pelo quintal esgravatando a terra com o bico e com as patas, botando ovos, caçando minhocas; e um belo dia – zás! – lá vem Sia Andreza e agarra os míseros bichinhos, torce-lhes o pescoço e larga no chão um corpo mole que pinoteia, num esforço desesperado pra não morrer.”

Clarissa aparecerá também em mais dois romances do escritor, Música ao longe e Um lugar ao sol. Este último ainda reúne personagens também vistas em Caminhos Cruzados, romance mais denso publicado logo após Clarissa, que entrecruza histórias de muitas personagens no mesmo período de tempo em que essa história acontece. Por fim, Érico Veríssimo é sempre uma leitura que será recomendada por mim, e não é a toa que hoje ele é um dos meus escritores favoritos. Entretanto, dessa leva de obras ainda me falta ler Um lugar ao sol, que prometo resenhar também, assim como os outros citados. Comente!

Por Jeff Pavanin

[Resenha] Os Lobos dentro das Paredes

Autor: Neil Gaiman
Ilustrador: Dave McKean
Editora: Rocco
Páginas: 60

Talvez, as nossas vidas não nos pareçam especiais o suficiente. Talvez, as coisas que fazemos, nossas preferências e manias, possam não significar nada diante de nossos próprios olhos.  Estamos enganados, quando pensamos que não há nada de peculiar em nós mesmos. Porque até mesmo em momentos triviais, como tocar tuba ou encher potes com geleia caseira, há um pouco de surpresa e alguma coisa capaz de despertar encanto. Assim, a vida de qualquer um de nós poderia se tornar tão pitoresca quanto a vida de nossa Lucy, a protagonista de Os Lobos dentro das Paredes.  Nesse livro, Neil Gaiman demonstra seu talento já consagrado por obras como Coraline e Sandman ao lado de seu fiel ilustrador Dave McKean. Os Lobos dentro das Paredes catalisa a força e a magia que estão escondidas em situações cotidianas, em pequenos detalhes que certamente poderiam pertencer a vida de qualquer pessoa.  Envolta nesse espírito de simples encantamento, a história de Lucy nos é contada com a perspicácia de um contador de histórias orais, daqueles que tem o poder de nos deixar com os queixos caídos.

A história começa sustentando-se sobre a exagerada sensibilidade de uma criança que, nesse caso, é capaz de perceber até mesmo que lobos estão dentro das paredes do antigo casarão onde mora. Eles faziam ruídos muito particulares, ruídos que não deixavam dúvida alguma de que eram lobos. Convencida disso e certa de que alguma catástrofe poderia acontecer, Lucy tenta convencer a todos de que os lobos estão lá, à espreita, observando e esperando a hora certa de saírem. Primeiro sua mãe que está perdida entre uma selva de potes de geleia. Depois, seu pai enquanto tocava sua majestosa tuba e, por fim, seu irmão que naturalmente não desgrudava do videogame. Para eles, poderia ser qualquer coisa, menos os lobos, porque todos sabem que se os lobos saírem das paredes, tudo estará acabado, tudo. Apenas o porquinho de pelúcia acredita em Lucy e a cada instante a invasão dos lobos parece estar mais próxima.

Lucy acaba por demonstrar toda a coragem que uma garotinha poderia ter. Enquanto sua família acaba por se entregar aos problemas, ela não vê outra alternativa, senão lutar. Gaiman deixa clara a força de sua personagem, sua capacidade de ultrapassar limites e de agir como se nenhum problema fosse grande o bastante para afugentá-la. Mesmo com a tal sabedoria popular de que tudo estaria acabado, se os lobos saíssem das paredes, mesmo essa sendo uma verdade quase inquestionável, Lucy resolve reverter a situação. Nada, nem mesmo uma grande verdade que todos sabem, seria capaz de diminuir sua coragem.

Há espalhado por toda história um ar de impossível, de onírico. No universo daquela família, que age com naturalidade até mesmo diante da invasão dos lobos, mudar-se para o deserto, para uma cabana, ou para um balão de ar quente são possibilidades mais viáveis do que retomarem sua casa. Tudo parece simples e ao mesmo tempo improvável, quando eles se encontram confinados em seu próprio jardim. Nessa situação, que poderia ser encarada como crítica, a vida deles simplesmente continua. A mãe vai trabalhar, o irmão vai para aula e o pai volta para sua tuba preferida. Até que a noite chega e passar mais uma noite no jardim não lhes parece uma opção confortável. E é esse desconforto que os faz ouvir a insistente Lucy.

Temos então mais uma parte de um ciclo. Os lobos assustaram as pessoas de sua casa e agora, são as pessoas que pretendem expulsar os lobos. Uma inversão de papéis interessante que completa um ciclo e acaba por humanizar os lobos. Quando a família se esgueira pelas paredes da casa, da mesma forma como os lobos faziam, ela percebe que os lobos tornaram-se quase pessoas ou que eles, pelos menos, ansiavam por isso. Um lobo estava tocando tuba, outro estava jogando videogame. Agora, são as pessoas que ameaçam sair das paredes e isso, para os lobos, talvez seja quando tudo estará acabado.

Por fim, ressalto o quanto o trabalho de Dave McKean é perturbadoramente incrível. As ilustrações são compostas, como em outros trabalhos do ilustrador, por várias técnicas. McKean usa fotografias, ilustrações, colagens e faz surgir um universo destoante e desconjuntado. Tudo isso produz um estranhamento inigualável. Tudo parece fora do seu lugar, mas ao mesmo tempo como se pudesse haver uma parte de qualquer coisa naquelas páginas. As ilustrações conseguem evocar a magia de um conto de fadas, mas que é mesclada ao ar de realidade das fotografias. São tão reais e tão impossíveis, como a possibilidade de os lobos saírem de dentro das paredes.

Nessa obra, Gaiman e McKean reafirmam-se como grandes contadores de história que são. Deixe-se levar pelas ilustrações ou pelas palavras escolhidas com exatidão, sobretudo deixe-se envolver pela inocência da história e pela profundidade da simplicidade. E não se esqueça de dar ouvidos à Lucy da próxima vez em que ela ouvir alguma coisa, porque é bem possível que mais alguma se esconda dentro das paredes.

Por Fillipe Gontijo

quinta-feira, 7 de março de 2013

[Resenha] O Menino do dedo verde

Autor: Maurice Druon
Editora: JOSÉ OLYMPIO
Páginas: 110

Menino do dedo verde? O nome nos leva a pensar, com muita facilidade, que o livro aqui discutido nesta resenha é mais um best seller ; daqueles com nomes bem exóticos criados puramente para despertar um interesse em “leitores-bisbilhoteiros”. Mas não! Relativamente não. Este livro infantil foi escrito por um autor gerado no mesmo ventre acadêmico que Saint-Exupéry e por isso (não só por isso, é claro) digno de prestígio e de leituras cada vez mais apaixonadas. Seu nome é Maurice Druon.

A leitura é fluida de forma exagerada, porque é simples e cumpre o papel que a literatura infantil deve cumprir: simplificar coisas profundas sem deixar de ter magnitude, revelar uma história que faça crianças correrem as páginas como se os olhos fossem a boca para uma fome que é a curiosidade e os adultos invejarem a infâncias de si mesmos se tivessem nas mãos este livro.

Sem muitas delongas, “O menino do dedo verde” questiona a guerra e seu significado para os homens da politicagem e para os homens que constroem armas; “hospedando-se” na perspectiva de uma criança que “não é como as outras”. Tistu, o dito cujo, é o filho do homem mais rico da cidade de Mirapólvora, o dono da fábrica de canhões que tem o maior espaço do mercado bélico mundial. Quando o Sr. Papai o matricula na escola, acaba por receber uma notícia desgostosa: Tistu não pode frequentar as aulas porque não é como os outros. Mas o problema que nasce aí como uma erva daninha, na verdade revela uma belíssima flor: Tistu não vai aprender as coisas do mundo por uma escola de pedra, mas sim, pela escola da vida: O Sr. Papai escolhe os melhores profissionais da cidade, para que ensinem seu filho o que não pôde aprender com um professor. Primeiramente e já em grande surpresa, o jardineiro de sua casa, Sr. Bigode, acidentalmente descobre que o menino tem o polegar verde, que faz germinar as sementes adormecidas das plantas, permitindo que cresçam de maneira monstruosa.

O Sr. Bigode afeiçoa-se a Tistu e os dois compartilham o segredo sobre o dedo verde (que não é da cor verde, e que só é chamado assim por que faz crescer a vegetação). Em seguida, com o senhor Trovões, diretor do presídio de Mirapólvora, conhecerá as leis dos homens. Tistu vai observar como as prisões são cinzentas e tristes; e vai tentar colorir tudo o que está atrás das grades com as cores da natureza. E ainda, com o doutor Milmales aprenderá que a saúde é uma dádiva muito frágil e que a doença é uma perdição insistente. Que os hospitais, por serem tão apáticos, tornam as pessoas cada vez mais pálidas e sem vontade de se recuperarem. E o mais importante, descobrirá que a sua diferença para com os outros é boa, milagrosa! Tistu vai descobrindo e sorvendo o mundo a partir da benevolência que pode gerar no coração dos homens: as flores trazem alegria e prosperidade para a vida alheia e por isso devem florir para todos. Sejam prisioneiros, gente da favela ou até mesmo animais do zoológico.

Mas quando a guerra chega á Mirapólvora, Tistu é o único capaz de discernir o que tem que ser feito. Lembremo-nos da famosa cena da flor que é colocada no cano de uma arma. As pétalas e pedúnculos podem exorcizar os males que as balas derramam? A vida que as bombas levam? Tistu nos ensina a guerrear com cores e aromas.

O menino do dedo verde faz germinar a flor inocente da nossa infância, que há muito tempo estava adormecida. Basta que ele nos toque com seu polegar.

Por Leandro Lourenço

[Resenha] O Nome do Vento

A Crônica do Matador do Rei
Autor: Patrick Rothfuss
Editora: Sextante
Páginas: 648 + notas

Quando você olha pra capa de O Nome do Vento pode até pensar: “Poxa, mais um querendo imitar Game of Thrones”. Se você realmente pensa assim, escreva isso num papel, amasse e jogue fora. Eu digo isso porque ouvi comentários desse tipo, de pessoas que evitam livros por pensar que são como cópias de outros. Isso é pré-julgamento, galera, e é feio. Patrick Rothfuss é um nome que deve ficar gravado na mente de quem lê alta fantasia assim como o de George R. R. Martin e Tolkien, isso é fato. Antes que me taquem pedras, não estou comparando um autor estreante com Tolkien ou qualquer outro veterano, mas acho imprescindível ressaltar que esse livro, justamente por ser o romance de estréia do autor, consegue chamar atenção. O objetivo na verdade é bem simples: contar vida de um homem. Esse homem é Kvothe, o Arcano; Kvothe, o Sem-Sangue ou mesmo Kvothe, o músico.

No início do livro, nos é apresentado um personagem peculiar, o Cronista, que segue viagem através dos Quatro Cantos da Civilização prestando serviços àqueles que querem registrar palavras, mas não as conhecem. Após ser roubado, ele chega até uma simples taberna, situada no centro de uma cidadezinha, onde conhece o estalajadeiro Kote, um homem estranhamente calmo, de cabelos vivos como o fogo, que vive a lustrar a madeira do balcão. Dentre os fregueses circulam histórias – muitas delas tão absurdas que se tornam difíceis de acreditar – sobre o famoso Kvothe, aquele que era capaz de usar magia como o grande Taborlin, o lendário feiticeiro. Porém, ninguém sabe seu paradeiro. Ninguém sabe também que Kvothe está bem ali, do outro lado do balcão servindo-lhes cerveja. O importante aqui é que o Cronista, com a ajuda de Bast, amigo de Kote, acaba por descobrir a verdade. Dessa forma, Kvothe (ou Kote) o contrata para registrar sua verdadeira história de vida, desde a infância, contada em três partes – dividida nos três dias em que o Cronista ficará hospedado na pousada. O Nome do Vento retrata o primeiro dia de relato.

Bom, com isso você pode até pensar que a história toda é contada pelo personagem, e que isso pode deixar tudo com um ar chato demais. É... Não é o que acontece. Vamos conhecer a criança Kvothe sob o olhar dela mesma, em uma narrativa em primeira pessoa. Não é o meu tipo favorito de narrativa, nem gosto muito pra ser sincero, mas ao lê-la na escrita do Rothfuss você esquece as churumelas e sente e vê tudo como o ainda pequeno Kvothe. Sente e vê sua humilde família ser assassinada em uma chacina comandada pelo Chandriano, uma espécie de grupo negro cercado de mistérios no qual ninguém acredita por se tratar de histórias para crianças. Quem hoje em dia acreditaria que o Papai Noel é verdadeiro? Ou mesmo o Coelho da Páscoa? É essa a sensação que todos têm ao ouvirem sobre o Chandriano da boca de Kvothe. Tudo ainda é agravado pelo fato dele descender dos Edena Ruh, uma trupe de artistas muito mal vista pela sociedade e tratada como ladrões de sangue sujo.

É a partir dessa fatídica noite – e também de um par de cenas muito tristes e carregadas de emoção – que começamos a conhecer o menino Kvothe realmente. Com ele vamos encontrar a fome e o frio, perambular como mendigos e ladrões pelo labirinto de telhados da grande Tarbean, sentir a humildade e bondade de pessoas capazes de doar o próprio alimento para ajudar a quem precisa. Também vamos descobrir o forte desejo de vingança e o ódio que ele nutre pelo Chandriano, que ele viu com os próprios olhos. Assim, já com mais de 13 anos, ele parte de Tarbean rumo à Universidade, na qual tentará ingressar a fim de se tornar um Arcanista, mas também com segundas intenções: ter acesso ao Arquivo, a maior biblioteca dos Quatro Cantos, onde tenciona encontrar mais informações sobre o Chandriano. E lá ele se depara com mais obstáculos que sua origem humilde pavorosamente lhe ajuda a obter: desprezo por parte dos filhinhos de papai, desavenças com um novo arquiinimigo, açoitadas nas costas, altas taxas de matrícula, negociações com agiotas mortais, dentre outros. Porém, nem só de desgraça é feita a vida: torna-se amigo de Willem e Simmon e começa a aprender as dificultosas disciplinas necessárias para se tornar um verdadeiro membro do Arcanum.

Aí você me pergunta: E que diabos “o nome do vento” tem a ver com tudo isso? Bem, Kvothe tem o sonho de se tornar um nomeador, capaz de conhecer e dominar os nomes de todas as coisas. Com o tempo se descobre capaz de invocar o nome do vento. Isso é alta magia, coisa que poucas pessoas no mundo são capazes de utilizar. Enfim, não vou me estender e contar todos os detalhes, pois o livro é grande e guarda bastante coisa complexa – como as disciplinas da Universidade, que diferem de muitas coisas já lidas por você, eu garanto – e outros mistérios que vão te deixar puto e te fazer quebrar a cabeça – tal como a famosa porta de quatro placas no Arquivo, que guarda alguma coisa nunca descoberta por ninguém ou mesmo os misteriosos Faes e etc, etc, etc. Se você procura um ótimo livro de alta fantasia, equiparado aos grandes nomes do gênero, eu indico O Nome do Vento a você. Saiba que ele já tem uma continuação publicada, a qual eu pretendo resenhar em um futuro próximo. Se você já leu, achou uma bosta ou quer compartilhar sua opinião sobre ele, é só nos deixar um comentário!

Por Jeff Pavanin