terça-feira, 5 de março de 2013

[Resenha] A Incrível História de Henry Sugar e outros contos

Capa da edição nacional.
Autor: Roald Dahl
Editora: Martins Fontes
Páginas: 280

O que dizer de um livro do Roald Dahl? Vamos tentar esquecer que ele é o escritor brilhante de A Fantástica Fábrica de Chocolate, de As Bruxas e do não menos empolgante Matilda. Dessa vez, resolvi ler um de seus livros de contos, A Incrível História de Henry Sugar e outros contos. Há a fama de que os contos de Dahl são misteriosos e até mesmo sinistros, um tom diferente do de seus livros infantis. Então, com certo receio de macular a imagem de quase deidade que Dahl tem para mim, encarei o livro. Quando lemos um livro de contos e que o título do livro é emprestado do nome de um dos contos que o compõem, esperamos que o tal conto seja o clímax do livro e lemos com a angústia de chegar ao tal eminente conto. Com esse desejo de conhecer logo o tal Henry Sugar, comecei o primeiro conto.

O conto O menino que falava com os bichos, é um exemplo claro do que há nesse pequeno livro. O conto é escrito com toda a desenvoltura de um grande escritor que com um cuidado avassalador revela uma situação improvável. Aliás, ouso dizer que os contos que compõem esse livro são histórias sobre o improvável. No conto inicial, Dahl conta a história de uma tartaruga anormalmente grande que havia sido capturada por um grupo de pescadores. O destino da tartaruga acaba por cruzar com o de um menino e daquele encontro surge algo incomum e delicioso.

Os contos que seguem são igualmente sobre acontecimentos simples, mas que abraçam esse tom de absurdo que, talvez, não fosse alcançado se a escrita de Dahl não fosse tão incrível. Penso que Roald Dahl poderia escrever um conto sobre qualquer coisa, tamanha a habilidade de tornar intrigante tudo o que escreve. Em sequência, estão os contos O carona, com a história de um peculiar e furtivo caroneiro; O Tesouro de Mildenhall, sobre a descoberta inesperada de um tesouro por um homem simples; O Cisne, uma inquietante história sobre bullying. Até que temos A Incrível História de Henry Sugar. É o conto mais longo do livro e nos apresenta um intrincado encadeamento de histórias que vão se desdobrando para compor os episódios mais incríveis da vida de nosso protagonista. A história é sobre um Henry Sugar fútil que acaba dando uma guinada em sua vida quando conhece a história de outro homem, o também incrível Imhrat Kahn, o homem que enxerga sem os olhos.

Embora o conto sobre a vida de Henry Sugar seja o alvo de todas as atenções, o conto Golpe de Sorte, que vem logo depois dele, conquistou toda minha admiração. Nesse conto, Dahl narra os eventos que culminaram na publicação de sua primeira história. Essa trajetória não poderia ser contada de forma mais deliciosa, cheia de detalhes, como a passagem de Dahl por internatos rígidos e violentos e a ideia que Dahl anotou em um caderno e depois usou para desenvolver nada menos que A fantástica Fábrica de Chocolate. Por fim e ironicamente, há o primeiro e inusitado conto escrito por Roald Dahl, Moleza, que trata-se de um relato do tempo em que Dahl foi piloto de aviões.

Os contos desse livro reafirmam Dahl como um incomparável contador de histórias, que é capaz de ser encantador e sútil produzindo romances infantis de qualidade absurda e, ao mesmo tempo, de escrever histórias mais complexas, permeadas pelo improvável que surge da simplicidade e de uma escrita brilhante.

Por Fillipe Gontijo

segunda-feira, 4 de março de 2013

[Resenha] Wolf Hall


Autor: Hilary Mantel
Editora: Record (edição nacional)
Páginas da edição em inglês: 650
Páginas  da edição nacional: 590

Se você frequenta as listas dos mais vendidos ou acompanha algum site de livros de fora (GoodreadsAmazon, etc) então provavelmente já cruzou com esses dois livros por aí: Wolf Hall, que foi lançado em 2009, e teve uma repercussão enorme lá fora e Bring Up the Bodies – foi apenas com o lançamento do segundo volume que todo esse burburinho chegou aos meus olhos. O livro tem sido tão falado ultimamente, que acabou despertando a minha curiosidade ao ver, incessantemente, a cara da Ana Bolena estampada na lista dos mais vendidos.

Uma curiosidade sobre esses livros é que ambos ganharam o Man Booker Prize for Fiction. Pra quem não sabe, o Man Booker Prize é um prêmio literário inglês, considerado um dos mais importantes e respeitados da atualidade. Pois então, quando Wolf Hall foi lançado em 2009, foi considerado uma das opções favoritas ao prêmio e acabou ganhando. Foi aí que ele caiu mesmo na boca do povo (aproveitando do bom e velho poder do adesivinho redondo adicionado à capa enunciando as honrarias que o livro recebeu).

E, depois de três anos de silêncio, quando a Hilary Mantel lançou o segundo volume - o Bring Up the Bodies - , que acabou ganhando o prêmio mais uma vez, renovando toda a fama e aumentando ainda mais a expectativa tida em cima dessa sequela, que o livro começou a repercutir mundialmente, estourando (e mantendo-se) na lista dos best-sellers do mundo.

Vou confessar que eu pedi o livro mais por curiosidade do que interesse. E quando ele finalmente chegou, eu comecei a ler com o pé atrás (pelo simples fato de que eu sempre acabo me decepcionando com livros muito falados e exaltados pela mídia. Não que eu seja do contra, e sim porque minha expectativa sempre fica muito alta e o livro nem chega perto do que eu imaginava que fosse). Mas, pra minha surpresa, eu não apenas adorei o livro: eu me apaixonei por ele, pela história e pela escritora. Esse foi sem dúvidas, não somente o melhor livro que eu li até agora em 2013, mas um dos melhores livros que eu já tive a chance de ler.

É uma coisa antiga a fascinação que as pessoas têm por estórias sobre os Tudors (talvez pelo apelo de novela que permeia a corte do Rei Henrique VIII, mas também pelas atitudes que ele toma no seu reinado que acabaram modificando totalmente a Inglaterra). E agora você se pergunta: nesse mar de adaptações literárias, cinematográficas, qual é o diferencial de Wolf Hall? Vou responder em três partes:

[Resenha] A Chave para Rondo

A Chave para Rondo
Autor: Emily Rodda
Editora: Fundamento
Páginas: 304

A Chave para Rondo é o primeiro livro da nova série de fantasia da autora Emily Roda, da série Deltora Quest. Embora seja cativante, o livro conta com um enredo central relativamente comum, em se tratando de fantasia. Dois primos (Leo Zifkak e Mimi Langlander) descobrem um mundo mágico, chamado Rondo, preso em uma inocente caixinha de música, herdada por Leo de sua excêntrica tia. Há uma série de regras que o dono dessa caixinha precisa seguir e quando os primos desobedecem uma delas, algo improvável acontece. Uma feiticeira azul e dissimulada salta de dentro da caixinha e rapta o inseparável amigo de Mimi, seu cãozinho Brutus. Decidida a resgatar seu bichinho, Mimi acaba por entrar no mundo da caixinha, levando seu temeroso primo consigo. Lá, envolvem-se em uma série de desventuras e conhecem várias figuras pitorescas que os incluem em uma previsível luta compra o mal que assola aquele lugar.

Apesar de ser um universo fantástico incrível, Rondo acaba perdendo força por constituir-se de um entrelaçamento de elementos de contos de fadas clássicos. Fórmula em alta atualmente que, nesse caso, acaba por diluir o brilho e o gosto especial de Rondo. No início da leitura, me surpreendi com o que havia em Rondo e cheguei a associá-lo ao incrível mundo de Oz. Não há semelhanças sólidas entre eles, mas vejo uma consonância entre alguns elementos bizarros de Rondo e os de Oz. Rondo não precisava de sua ligação com os contos de fadas clássicos para ser mágico. Seus elementos originais são bons o suficiente para se sustentarem sem se apoiar tão diretamente nos clássicos.

Diante dessa reconstrução e mescla dos contos de fadas, vale chamar a atenção para a reformulação de alguns personagens, como é o caso da porca Berta. A porca de guarda é inesquecível, com seu ego gigantesco e certa inocência que derrete qualquer coração. Vale lembrar também de dois tipos de seres que habitam Rondo: os floquinhos e os salpicos. São elementos secundários da história, mas que não deixam de serem divertidos e de atribuírem um brilho especial à trama.

Em relação à escrita, o livro é bastante simples. Os capítulos são curtos e cheios de ação. Há muitos diálogos e os esporádicos trechos descritivos são curtos, mas satisfatórios. O livro é composto por uma narrativa direta que é permeada por alguns pensamentos do protagonista. Talvez, alguns trechos poderiam ter sido melhor trabalhados, com intenção de cativar ou mesmo intrigar o leitor com mais eficiência. O texto não é justo com a mágica de Rondo. Aos olhos do leitor e ao longo do texto, há uma sensação de que Rondo é maior e mais encantador do que as palavras da autora são capazes de nos fazer enxergar. Quando o livro acaba, desejamos conhecer mais da mágica de Rondo e que seja realmente mais mágico.

Por Fillipe Gontijo

domingo, 3 de março de 2013

[Resenha] O Clã dos Magos

Capa nacional de O Clã dos Magos
Autor: Trudi Canavan
Editora: Novo Conceito
Páginas: 434

Esse é o primeiro volume da Trilogia do Mago Negro, de Trudi Canavan. Trata-se da primeira trilogia escrita pela autora, que possui mais duas dentre suas obras. Como o próprio título já elucida, a história gira em torno de um Clã de magos que foi criado para proteger a cidade de Irmadin. Tudo parece lindo, a não ser pelo fato de que os habitantes da favela de Irmadin odeiam o Clã. A história começa com uma garota, Sonea, uma das faveladas que, junto com um grupo de amigos, nutre um ódio mortal pelos magos. Certo dia, alguns magos descem até a favela para concluir um evento chamado de “Purificação” – medida tomada pelo Rei para acabar com mendigos e ladrões – quando Sonea e seus amigos começam a tacar pedras no escudo de magia que os magos usam como proteção. Acontece que a pedra que Sonea arremessa, alimentada com tanto ódio que a garota sente, acaba ultrapassando o escudo mágico protetor. Aparentemente, a única coisa capaz de quebrar magia é também magia, fato este que leva os membros do clã a acreditar que Sonea é uma maga selvagem.

A partir disso dá-se início a uma perseguição por Sonea, que, por ser considerada uma maga, não pode perambular pela cidade com os poderes fora de controle. Essa perseguição vai tomar a primeira metade do livro, que é dividido em duas partes. Um ponto que acho importante comentar é que a autora poderia ter escrito em menos de 100 páginas o que custou cerca de 230. A escrita é bem fácil e chatinha, cheia de ações simples e desnecessárias, mas que com o tempo torna-se suportável. Eu demorei pra “pegar no embalo” da história, lia poucas páginas por dia e sem muita vontade, ainda que seja um livro de fantasia, que eu amo. As coisas melhoram na segunda parte do livro, pois até lá já deu pra você simpatizar o suficiente com alguns personagens, dentre eles magos, o que deixa a leitura mais prazerosa. Até fiquei com vontade de saber o que aconteceria nos próximos capítulos, mas ainda assim achei a história um pouco parada e repleta de clichês. Se você começar a ler esperando grandes cenas com feitiços e demonstrações épicas de magia, pare agora porque esse livro não é pra você.

Outro ponto que quero comentar é o palavreado. Eu não sei como é no original em inglês, mas a fala do pessoal da favela é permeada por vários termos que estamos acostumados a ouvir por aqui, como firmezatrampo,vacilão e cagueta. Não sei se foi escolha do tradutor ou se no texto original as palavras em inglês se equivalem a essas, mas achei bem estranho. Não posso deixar de comentar também a enorme quantidade de erros de português, nome de personagen colocado na frase errada (o que fez parecer com que o personagem estivesse em um diálogo com ele mesmo, sendo que na cena havia duas pessoas – e o cara não tinha problemas mentais) e errinhos medíocres de gênero – várias vezes o Clã foi retratado no feminino. Enfim, se você está esperando um ótimo livro de fantasia, evite O Clã dos Magos.

Resenha por Jeff Pavanin

sábado, 2 de março de 2013

Matéria: Além do peregrino da Alvorada


Todos sabem que a série As Crônicas de Nárnia é famosa no mundo todo, já tendo inclusive três adaptações para o cinema, além de especiais feitos para a televisão e peças de teatro distribuídas ao redor do globo. O que a maioria ainda não sabe é que as histórias de Lewis, de acordo com alguns especialistas, trás em seu âmago questões polêmicas e curiosas, como sua relação com o cristianismo e o sexismo, por exemplo. Esta matéria tem como base um dos livros das Crônicas, A Viagem do Peregrino da Alvorada, e procura exemplificar algumas das questões.

Atenção: O texto pode conter spoilers para quem ainda não leu o livro.

“A Viagem do Peregrino da Alvorada” é o terceiro livro pertencente à série “As Crônicas de Nárnia”, escrito por Clive Staples Lewis (mais conhecido como C. S. Lewis) e foi publicado originalmente no ano de 1952. A edição do livro utilizada para a construção desta resenha foi uma edição brasileira publicada no ano de 2002 no Volume Único contendo as sete obras que completam a série.

A história trata de uma fantasia histórica e mitológica voltada para o público infantil, narrando os acontecimentos da terceira viagem dos irmãos Pevensie ao país de Nárnia. “Nárnia” é um mundo criado pelo autor para servir de cenário às histórias narradas nas sete obras da série, e recebe este nome em homenagem ao país de Nárnia, local onde acontecem a maior parte das histórias. Nesse mundo, muitos animais podem falar, a presença de seres mitológicos é abundante e a magia é comum aos habitantes. A história deste livro é narrada muitos anos após a chamada Era de Ouro de Nárnia, Era esta que é marcada pelo reinado dos Quatro Reis de Nárnia, sendo estes os irmãos Pevensie em sua primeira viagem ao mundo – história narrada no primeiro livro da série em que os irmãos são protagonistas.

O livro de 117 páginas (na edição Volume Único) é dividido em dezesseis capítulos onde o narrador observador conta a história sob sua própria perspectiva, por vezes realizando comentários pertencentes ao próprio autor da obra, e ainda fazendo referências às outras histórias da série.

(clique no link abaixo para ler a matéria completa)