Série: A Roda do Tempo - Livro 1
Autor: Robert Jordan
Editora: Intrínseca
Páginas: 783 + Glossário
Ano: 2013 (originalmente publicado em 1990)
Atualmente é muito comum nos depararmos com diversas histórias fantásticas quando entramos em uma livraria qualquer. Com a popularidade crescente de sagas mais atuais, como Guerra dos Tronos, e também das veteranas, como O Senhor dos Anéis, por exemplo, o gênero se tornou ainda mais difundido. Já ouvi relatos de leitores que antes dividiam sua atenção entre distopias e romances voltarem seu olhar para as histórias de fantasia após conhecerem melhor o que o gênero tem a oferecer. A saga A Roda do Tempo, publicada no Brasil pela Intrínseca, não deixa a desejar nesse quesito, apresentando ao leitor uma jornada tão grandiosa que deixaria boquiaberto até o leitor mais crítico. Já aviso que a densidade da trama pode deixar a resenha um tanto cansativa ou incompreensível, mas darei meu melhor para explicá-la sem soltar muitas revelações do enredo ou da grande mitologia da saga.
sábado, 15 de novembro de 2014
sexta-feira, 10 de maio de 2013
Entre orelhas e responsabilidades
sábado, 6 de abril de 2013
Resenha: As Crônicas de Spiderwick
Editora: Rocco
Volume 1: O Guia de Campo - 114
páginas
Volume 2: A Pedra da Visão - 111
páginas
Volume 3: O Segredo de Lucinda -
114 páginas
Volume 4: A Árvore de Ferro - 125
páginas
Volume 5: A Ira de Mulgarath -
139 páginas
Alguns amores são difíceis de se
consumarem. Passam-se anos de flertes intermináveis e pensamentos
incontroláveis sobre o outro. Há momentos de desespero em que nenhuma limitação
pragmática é capaz de impedir que o desejo de ter, de possuir, de viver o tal
amor se consume. Assim, feito um aparente impossível amor à primeira vista, é
que me apaixonei pelas Crônicas de
Spiderwick. Não foi um sentimento fácil de conter, mas que esteve impedido
de se consumar pelas limitações, sobretudo financeiras da realidade. Então,
abraçando a única alternativa que me restava, resolvi amar, mesmo que fosse aos
poucos. Os cinco livros que compõem As
Crônicas de Spiderwick são pequenas joias e quase possuem o preço de
diamantes. Desprovido de dinheiro suficiente para comprá-los, caí em oração
para que algum dia a grande força sobrenatural que dita as regras das promoções
olhasse por mim e diminuísse os preços. Por sorte ou por milagre, encontrei os
dois primeiros volumes em uma promoção numa livraria dona de preços insólitos.
Mesmo sem perspectiva de comprar os outros volumes, comprei os dois primeiros.
Eram absurdamente lindos. Eu tinha até medo de abri-los. Todos os livros da
série são cheios de detalhes, cuidadosamente ilustrados, como obras primas de
um grande artista. Cheguei até a cogitar a possibilidade de aqueles livros
terem sido feitos artesanalmente e eram tão incríveis que não me surpreenderia
se isso fosse verdade. Somente algum tempo depois de eu ter lido os dois
primeiros é que uma bendita promoção trouxe os três volumes restantes até mim.
Finalmente, eu tinha os cinco volumes.
domingo, 31 de março de 2013
Resenha: O Conto da Ilha Desconhecida
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 64
Um homem vai até a porta do rei, bate e diz ao guarda que
quer falar diretamente com ele. O castelo, cheio de portas (uma para obséquios,
outra para petições e mais uma para as decisões), dificulta muito a
possibilidade de que seu pedido seja atendido. Mas ele resolve prostrar-se em
frente à porta, até que seu pedido seja atendido. “Que é que tu queres”,
pergunta a mulher da limpeza, mandada pelos seus superiores. “Quero falar ao
rei”, responde o homem. Depois de um bom tempo, o rei resolve ir atender a pessoa
que tão atrevidamente resolveu o incomodar. Ordena que a mulher da limpeza abra
a porta de par em par e ouve o homem lhe pedir um barco. Mas para quê um barco?
Para ir atrás da ilha desconhecida! E se já não existem mais ilhas
desconhecidas? Quem poderá dizer?
quinta-feira, 28 de março de 2013
Resenha: Terra Sagrada
Editora: Rocco
Páginas: 410
“O silêncio de dois minutos”. Esse
é o nome do capítulo que abre Terra
Sagrada, sétimo romance de Rose Tremain, e são esses dois importantes
minutos que regem a grande temática do livro. Em fevereiro de 1952, a pequena
família Ward se reúne, de pé e bem juntinha, na plantação de sua fazenda em
Suffolk – zona rural no interior da Inglaterra – em sinal de respeito pela
morte do rei Jorge VI. Abaixo de seus pais está a diminuta Mary, protagonista,
com 6 anos, pés e mãos pequenos e um rosto redondo que, para sua mãe, lembra um
girassol. Mais abaixo, ciscando, está a galinha d’angola de Mary, Marguerite,
com quem a menina compartilha a estonteante descoberta que fez durante esses
minutos de silêncio: ela não é uma menina, mas um menino.
segunda-feira, 25 de março de 2013
Resenha: Roverandom
Editora: Martins Fontes
Páginas: 127
Roverandom pode parecer mais uma fantasia clássica, com espadas,
dragões e anéis. Ainda mais que em sua capa temos um dragão repousando calmamente
e, talvez, sobre um tesouro. Eu mesmo comprei o livro pensando nisso. Pensava
que seria a aventura de alguma outra trupe de guerreiros e de um ou dois magos.
É preciso dizer também que Roverandom
é um livro muito pouco conhecido de um escritor muitíssimo popular. Qual o
mistério desse livro obscuro? Se ele fosse tão parecido com a saga do anel, ele
seria um pouco mais conhecido ou, talvez, por ser mais daquela mesma história,
as pessoas tenham desprezado o coitado. Enfim, há outra informação importante. Tolkien
escreveu essa história com o inocente intuito de divertir seus filhos e,
naturalmente, ele consegue muito mais do que isso. Rover, o cãozinho que
empresta seu nome ao livro, poderia ser um tagarela e petulante cachorro
falante, como vemos em inúmeras outras obras de animais humanizados, mas a
habilidade narrativa e a surpreendente imaginação do gênio da fantasia
transformam uma fórmula comum, que combina um cachorro surpreendente e uma
jornada insólita, em algo cativante e encantador.
domingo, 24 de março de 2013
[Saldo] Semana #3: de 18 a 24 de março
Boa tarde! Essa semana tivemos uma movimentação bem pequena no blog, com somente duas resenhas postadas e nenhuma parceria nova. Isso se deve principalmente as atividades cotidianas que consomem os resenhistas, como trabalho, faculdade e etc. Seguem os links para as duas resenhas dessa semana:
• O Incêndio de Troia, por Marion Zimmer Bradley - http://bit.ly/163x8cm
• Os Amigos, por Kazumi Yumoto - http://bit.ly/WEMYbQ
Prometemos uma melhora na semana que vem e esperamos cumprir, ok? Aproveite o domingo e fique de olho no blog e também em nossa página no Facebook para atualizações. Abraço!
quinta-feira, 21 de março de 2013
[Resenha] O Incêndio de Troia
Editora: Imago
Páginas: 517
Muita gente já deve relacionar o
nome de Marion Zimmer Bradley à saga As
Brumas de Avalon, talvez por ser sua obra de maior conhecimento. Contudo, a
autora é dona de uma ampla gama de obras, que infelizmente não tem, hoje, o
reconhecimento nacional que merece. Vários títulos escritos por ela nós podemos
encontrar em estantes empoeiradas de qualquer sebo por aí, tais como os inúmeros
volumes da série Darkover, que foram
originalmente publicados nas décadas passadas e esquecidos no tempo em suas
antigas edições. Felizmente, em 2010 a Editora Imago nos presenteou com a nova
edição de O Incêndio de Troia, um
volume compacto que traz os três volumes da saga: O Chamado de Apolo, O
Presente de Afrodite e, por fim, A
Destruição de Posêidon – em alguns países os volumes foram publicados
separadamente.
Marion nos apresenta, no livro,
muito mais do que a sua representação do cenário mitológico do mundo antigo, com
um panteão de Deuses e Deusas pra todos os credos; ela nos conta a história de
Kassandra, princesa de Troia, que abdica da vida de mulher submissa aos homens
para dedicar-se somente ao sacerdócio. Durante sua trajetória, observa-se muito
do que já pôde ser lido em As Brumas de
Avalon, onde a protagonista Morgana também é uma sacerdotisa. Entretanto,
os caminhos seguidos por elas são ligeiramente diferentes. Kassandra é separada
de seu irmão gêmeo logo ao nascer, que é mandado ao monte Ida para crescer em
segredo entre os camponeses. Ela, contudo, provida da Visão que os Imortais lhe
ofereceram, estabelece um vínculo psíquico com o irmão Páris, podendo enxergar através
de seus olhos, ainda que estejam separados por uma grande distância.
Após ser mandada para conviver entre
as guerreiras amazonas, Kassandra, já mais velha, retorna à Troia decidida a
entregar sua vida nas mãos dos Imortais, escolhendo a Apolo, o Senhor do Sol,
como o merecedor de sua devoção. É nesse ponto da história que Páris também chega
à cidade, fazendo com que o segredo sobre sua existência seja finalmente
trazido a público. A partir disso, Kassandra começa a ter visões que prevêem a
destruição de Troia, enxergando navios fantasmas na baía, além de fogo e morte.
Tentada a avisar seus familiares e pessoas próximas, ela começa a ser considerada
uma louca e portadora de maus presságios para casamentos e nascimentos, fazendo
com que ninguém acredite em sua palavra. Quando o irmão Páris rouba Helena de
Esparta e toma-a como esposa, os akaios, inimigos de Troia, iniciam uma guerra
que perdura por muitos anos e por todas as próximas páginas do livro.
Esse resumo pode ter ficado um
pouco confuso, mas tudo se deve (além da minha capacidade quase nula em
resumir) à minuciosa narrativa de Marion Zimmer Bradley, que nos conta a vida
não só de Kassandra, mas também de todos que fazem parte de sua história, com
detalhes e muitos diálogos bem construídos. É importante ter em mente que o destino
das pessoas e da cidade é sempre colocado nas mãos dos Imortais, que são considerados
os grandes responsáveis pela guerra que é travada em terra. Também acho legal
comentar que, assim como em As Brumas,
é possível notar com extrema clareza o incessante feminismo que a autora emprega
em sua narrativa, o que pode deixar a leitura um tanto pedante em algumas
passagens. Contudo, isso não chegou a ser um empecilho real para mim.
Apesar de o livro conter pouco
mais de 500 páginas, a leitura é complexa e particularmente lenta, fazendo com
que o livro pareça ter quase o dobro disso. Algumas características da edição –
como o diminuto tamanho das letras, o mínimo espaçamento entre as linhas e o grande
número de palavras por página – facilitam essa lentidão. Entretanto, a autora
tem uma escrita muito gostosa de acompanhar, pois prioriza os sentimentos e o
processo de pensamento que levam às ações decisivas das personagens, a quem nos
afeiçoamos facilmente. E, ainda que seu final não tenha me deixado completamente
satisfeito, a ampla rede de acontecimentos foi capaz de me prender à leitura
como poucos livros conseguiram, transformando O Incêndio de Troia no dono de uma das narrativas mais legais que
pude acompanhar.
Obs: Não sou estudioso de
mitologia, então não sei afirmar corretamente se os fatos narrados no livro
correspondem ao que há na literatura mitológica mundial. Porém, nas minhas
pesquisas pela internet pude ver que muito do que a autora escreveu está de
acordo com o que é retratado na Odisséia
e na Ilíada, os grandes poemas épicos
de Homero. Ainda assim, não podemos esquecer de que o livro se trata de uma
romantização, podendo reunir fatos deliberadamente modificados ou incluídos através
da liberdade criativa da autora.
Por Jeff Pavanin
Por Jeff Pavanin
terça-feira, 19 de março de 2013
[Resenha] Os Amigos
Editora: Martins Fontes
Páginas: 222
Trata-se de um livro muito singelo, ponto. A história da
autora japonesa, Kazumi Yumoto pode ser chamada no mínimo, no mínimo, de bela,
porque contém personagens muito cativantes que nos fazem sempre querer mais
páginas, mais fatos, mais poesia. Sim! É uma obra que carrega um teor muito
excêntrico de poesia; que é rodeada de ideias nítidas e de mistérios sobre os
quais a nossa mente sempre filosofa. O que vem depois da morte? O que é morrer?
Qual nossa razão de existir?
Considero os japoneses muito sóbrios e introspectivos, e vejo
que se reflete na literatura da maioria deles. São samurais em busca da
perfeição de tinta e papel!
Basicamente a história é o relato de memória de um menino
chamado Kiyama. Ele nos conta as lembranças que tem da sua infância, junto dos
seus dois melhores amigos: Yamashita, o gordinho comilão e Kawabe, o esquisito
hiperativo. Ao término das férias de verão, os três resolvem espiar um velho da
vizinhança, que, segundo os rumores ouvidos por eles, está prestes a morrer; e
como nenhum deles ainda tinha visto uma pessoa recém-falecida, seria uma boa
experiência.
Dá para se divertir muito com os planos que montam para
observarem o velho sem serem vistos, o que muitas das vezes dá errado. Nenhum
movimento dentro da casa. Chegam a pensar, até certo ponto, que o velho morreu
em frente à tevê, mas deparam-se com o contrário. Aos
poucos o velho vai percebendo a aproximação dos três pestinhas que têm rondado
sua casa e, mesmo depois de algumas relutâncias, eles acabam por gerar um
vínculo natural, quase repentino, mas acima de tudo, muito bonito.
A casa e a vida do velho senhor, que estavam abandonadas,
passam a ganhar uma nova cara. Sua decrepitude se esvai: enerva-se a casa (cheia
de antigos escombros, vidros quebrados e lixo espalhado na grama) à mesma
medida que a saúde dele. Os meninos conseguem reformá-la devagarinho, uma
pintura ali, uma capinada aqui. Novinha em folha fica a residência e a
disposição do senhorzinho finalmente aparece, como não vinha há anos. Para
comemorar, o velho parte uma melancia, e aquele se torna um signo, um código, um
rito só deles, como bons e grandes amigos.
Sentindo o quintal muito vazio, o velho lança a proposta de
cultivar um jardim. Eles querem um bom resultado, e que seja rápido, para
deixar viva a casa com mais agilidade. Os meninos visitam uma casa de sementes
e descobrem que os amores-de-moça
seriam perfeitos para o quintal do velho. Assim o fazem: compram, plantam e
cuidam.
Digo que é emocionante “ver” as flores crescerem, mesmo que
seja pelas páginas do livro. Dentro da nossa cabeça nasce algo desconhecido e
que muda em segundos. Yumoto nos faz deslocar no tempo e enxergar um jardim
completo onde só há ainda sementes recém-plantadas. Um milésimo de segundos e
pensamos num pedúnculo; no outro segundo que sucede já temos os canteiros
cheios.
Resolvo me calar agora, para não ferir o clímax e nem
destruir a graça do resto de toda a história. Mas posso concluir dizendo: Os Amigos é um livro que vale a pena ser
lido por muitos motivos: talvez porque nos mostre os talentos e a profundeza
tão bela de suas personagens, como a incrível capacidade de Kawabe para
inventar histórias; a inoxidável habilidade de Yamashita com os cortes de
peixaria (negócio de família que pretende seguir); o “dom” que Kiyama tem para
escrever, ou a beleza dos fogos de artifício que o velho produz. Talvez porque
pode ser lido como uma história descompromissada, por fruição. Ou talvez,
ainda, porque o livro seja tão lindo que dê medo de chegar à última página.
Kazumi Yumoto deu o nome certo para sua obra: sinto que nos
tornamos grandes amigos; papel, letra e olho.
Por Leandro Lourenço
domingo, 17 de março de 2013
[Resenha] Salto Mortal
Autor: Marion Zimmer Bradley
Editora: Bertrand Brasil
Páginas: 896
Uma das primeiras lembranças que tenho de quando conheci minha melhor amiga é o imperativo: "Leia Salto Mortal, da Marion".
Isso me perseguiu por anos, e sempre tive dificuldade em encontrá-lo - procurando exclusivamente em livrarias, ou lojas online, que quando o tinham disponível ou era por um preço absurdo, ou estava esgotado. No fim, encontrei-o em um sebo online, ano passado, por uma metade da metade do preço (numa promoção); e hoje este livro me persegue por todos os sebos pelos quais caminho.
Não sou a pessoa mais ágil em leituras, especialmente porque não consigo ler uma coisa de cada vez; mas eu estava para viajar e encontrar a amiga, e ela não admitia que eu chegasse lá sem ter lido tudo para poder comentar com ela. Acredito que o tenha lido, então, em uma semana. E foi uma das coisas mais gostosas que já li em minha vida.
É claro que por ter lido no ano passado a memória dos fatos não está fresca, e, para piorar, o hábito que tenho de marcar as páginas só foi adquirido muito recentemente. Mesmo assim, tenho cobiçado lê-lo novamente, e enquanto não cedo à vontade (porque tenho uma pilha de outros títulos na fila), acredito que devo tomar a oportunidade de divulgar esse tipo de romance que é, no mínimo, inusitado. Preparem-se, vai ser uma resenha bem grande.
Marion Zimmer Bradley é conhecida por Brumas de Avalon e livros que remontam lendas e outros tipos de ficção fantástica. Em Salto Mortal, todavia, elas no leva ao seu país de origem, Estados Unidos, e abre a tenda de sua escrita nos 40. Tommy Zane é um menino de quatorze anos, filho do domador do Circo Lambeth, que se fascina por uma família de trapezistas chamada Os Santelli Voadores, recém-aderida à grande trupe.
sábado, 16 de março de 2013
[Resenha] A Passagem
| Nova capa do selo Arqueiro |
Autor: Justin Cronin
Editora: Sextante
Páginas: 816
A passagem – primeiro volume na
trilogia do americano Justin Cronin passou um ano (talvez até mais tempo)
guardado na minha estante até que eu resolvesse lê-lo. Nem mesmo a resenha
estrelar feita pelo Stephen King, um dos meus escritores favoritos, foi o
suficiente pra me tentar a encarar esse livrão de mais de 800 páginas – não
tanto pelo seu tamanho, mas sim pela minha ressaca literária de vampiros da
época (que persiste até hoje). Ou talvez estivesse apenas esperando o momento
certo para ler este romance (livros têm muito disso e acho que muitos leitores concordam
com esse fato).
Enfim, o que eu encontrei foi uma
grande e agradável surpresa nesse romance épico. Vou tentar dar uma pincelada
geral na estória sem estragar os detalhes, sutilizas e tramas do livro:
A narrativa começa nos
introduzindo a personagem principal: Amy Harper Bellafonte e a série de
infortúnios encarados por sua mãe antes e após seu nascimento, até o momento em
que ela é abandonada num convento de freiras.
“Antes de se tornar a Garota de lugar nenhum – Aquela que surgiu, A Primeira, Última e Única, a que viveu mil anos – ela era apenas uma menininha de Iowa chamada Amy...”.
Enquanto a história de Amy se
desenvolve em um canto do país, temos dois agentes do FBI – Wolgast e Carter –
coletando prisioneiros condenados à morte para participarem de um teste de
pesquisa do governo. Eles vão até as prisões e oferecerem a troca da pena de
morte pela autorização a ser utilizado como cobaia em um projeto.
O Projeto Noah nada mais é do que
uma tentativa dos cientistas e do governo americano de isolar o vírus do
vampirismo com todas as qualidades (imortalidade, força, etc) e criar super
soldados para servir os Estados Unidos.
Só que, até então, os cientistas
não conseguem o resultado desejado: todas as cobaias se transformam em
criaturas terríveis, dignas de filmes de terror, assustadoras a ponto de tirar
qualquer dúvida de que esse livro não se trata de vampiros fofinhos. O que
temos aqui são criaturas mortais, sensíveis à luz solar, sedentas por sangue. Os
verdadeiros vampiros, junto a uma trama incrível e personagens maravilhosos e
inesquecíveis.
O caminho dos agentes se cruza
com o de Amy quando o nome da garota surge na lista de pessoas a serem
convocadas para participar do projeto Noah. E, para a surpresa dos cientistas,
Amy é a primeira paciente em que o vírus funciona da forma planejada (ou o mais
próximo possível).
O único problema é que é nesse
momento em que os doze prisioneiros cobaias (ou “virais” como são referidos no
livro) conseguem fugir e, com isso, acabam decimando a população dos Estados
Unidos, modificando completamente o país.
“Aconteceu depressa. Trinta e dois minutos para um mundo morrer e outro começar a nascer”.
Foi nesse ponto em que eu já
estava apaixonado pela narrativa e por todos os detalhes do livro que o autor
me dá um baita susto: após a fuga dos vampiros há um pulo de 92 anos na
narrativa – nós temos a visão geral da vida dos sobreviventes após incidente da
fuga dos virais e como eles estão resistindo a essa ameaça perene da presença
dos virais. Temos, aqui, um livro dentro de um livro: um novo grupo de
personagens é apresentado, somos introduzidos às suas histórias e ao grande
dilema que essa população enfrenta: a única maneira a sobreviver aos virais,
mais importante que o grande muro que cerca a colônia, é as luzes ofuscantes
que brilham a noite inteira, afastando essas criaturas. Enquanto houver luz,
eles estão a salvo... O único problema é que a energia elétrica está quase se
esgotando.
A partir desse conflito a
narrativa começa, lentamente, a se encaixar de forma única e brilhante com
todos os eventos que acontecem no início do livro, 92 anos atrás – começando com
a chegada da menina Amy a essa colônia.
Embora eu tenha começado a ler
essa segunda parte do livro com certo receio pela mudança abrupta, a partir do
momento em que dei chance da história se desenvolver no seu próprio ritmo, as
coisas ficavam, a cada página, mais e mais incríveis, renovando
meu amor pelo livro. Posso dizer, sem dúvidas, que esse é um dos melhores
livros do gênero que já li – Justin Cronin é um escritor com uma escrita
incrível, uma sensibilidade incomparável e uma habilidade de virtuoso para
contar um épico como esse. As comparações feitas com A Dança da Morte de
Stephen King são mais que justas, assim como o elogio tecido pelo famoso autor
de terror à Passagem:
"Esta é a história de vampiros que você não pode perder: 15 páginas são suficientes para cativá-lo; depois de 30, você se descobrirá prisioneiro, lendo noite adentro. Um livro com a força dos épicos.” – Stephen King.
De uma coisa tenho certeza: não
vou demorar tanto quanto para começar a ler o segundo volume dessa trilogia: Os Doze (já disponível em português) – e
mal posso esperar pela conclusão da história que saí em 2014. E que venham as
adaptações cinematográficas!
Por Hike Penido
Por Hike Penido
sexta-feira, 15 de março de 2013
[Resenha] Carmilla
Autor: Sheridan Le Fanu
Editora: Hedra
Páginas: 149
Cobicei por muito tempo este livro, apesar de não ser uma das fãs mais assíduas do universo vampiresco. Interesso-me bastante, sobretudo às lendas e registros oficiais; e embora mistério e terror sejam sempre bem-vindos às minhas leituras, os vampiros não se encontram sempre presentes. Imagino que isso tenha influenciado em minha opinião sobre Carmilla, especialmente comparando-se às resenhas que li tão logo após o término.
Numa síntese, Carmilla é a estranha jovem acolhida pelo pai de Laura após um acidente de carruagem, e uma estranha conversa com a mãe da moça.
Numa síntese, Carmilla é a estranha jovem acolhida pelo pai de Laura após um acidente de carruagem, e uma estranha conversa com a mãe da moça.
[...] Ela expressou certa relutância em nos importunar, deixando a filha sob nossos cuidados, dizendo que a jovem tem saúde delicada, que é nervosa, mas que não sofre de qualquer tipo de convulsão, nem alucinações, e que, na realidade, é perfeitamente lúcida.
Carmilla é uma obra pequena, uma leitura rápida - que a princípio foi publicada em folhetim. É difícil escrever uma resenha sem dar spoilers, apesar de que nada sigila desde o princípio a identidade sobrenatural de Carmilla.
Penso ser exigente. Gosto de tramas que me façam pensar, seja por um conteúdo filosófico ou por deduções que possa fazer além das vistas dos personagens. Carmilla não é esse tipo de livro. Sabe-se desde o começo quem é o que, o que está para acontecer, e qual será a resolução da história.
A leitura, todavia, é agradável. Estamos a par da narrativa de Laura, uma jovem quem mora apenas com o pai e suas preceptoras em um castelo na Estíria; narrativa que a todo instante sabemos estar sendo redigida muitos anos depois, propiciando ao autor mesclar a ingenuidade da protagonista com os conhecimentos adquiridos, pelos quais ele pôde infiltrar as primícias de seu suspense.
Apesar de estar datada pelo século XIX, lê-se sem rodeios. Acredito que isso se deva também a tradução, que me instigou a ler a obra no original; porque apesar de ser "limpa", deixou a indecisão do tradutor, sobretudo nos diálogos, em que ora usa segunda pessoa (tu/ vós) e ora terceira (segunda pessoa "você" + verbos em terceira pessoa, enfim, na linguagem que conhecemos atualmente), causando a impressão de que possam ter se perdido muitas características da obra original, como termos-chave, o tom específico do autor e mesmo o tom da época. Mas sou eu, e admirada que sou com clássicos, percebo bastante se essas traduções atuais proporcionam ou não essa migração em nosso imaginário.
Tudo isso não quer dizer que não há fatos particulares, e nenhuma surpresa. A presença de Carmilla é envolvente não só para suas vítimas, mas para os leitores, como se o autor caprichasse mais durante as ações da jovem. É uma personagem muito bem desenvolvida, em suas ações e seus segredos. O ponto de vista de Laura também é essencial para nos incutir esse fascínio, e aí entra o componente homossexual.
Carmilla foi escrita não somente numa época em que se popularizavam as histórias de vampiros. O século XIX queria reestruturar as morais na sociedade, sobretudo religiosas. Autores homossexuais eram exilados, e casas que lhes propiciavam tais refúgios foram tomadas pela polícia. Mais ainda, a homossexualidade era conhecida até há pouco tempo apenas por sodomia, então era quase uma novidade conceber que duas mulheres pudessem ter esse tipo de afeto, ou um grande estranhamento - embora, como é de se imaginar, não fossem casos raros. Esse tipo de amor é explícito na obra de Le Fanu, e não em qualquer sentido erótico, mas nas palavras da própria Carmilla; e mesmo com o passar do tempo, tive a impressão de que esse afeto não se extinguiu plenamente às circunstâncias.
Por fim, a edição que tenho pertence à editora Hedra, uma de minhas favoritas. Gosto do total capricho que eles têm com os livros, a começar pelas capas - e eu sou sim o tipo de pessoa que julga pelas capas. É o tipo de livro que me sinto à vontade para ostentar onde quer que o tenha comigo. Gosto também das diagramações, organizadas e limpas - "limpas", com uma fonte legível, um espaçamento que não tumultua as palavras nos parágrafos, nem cansa as vistas. Mas o que mais fez afeiçoar pela Hedra foram as introduções. Além de trazer uma pequena biografia dos autores, insere curiosidade sobre eles, sobre as obras, sua repercussão, e todo tipo de história relacionada, além da lista bibliográfica usada para compô-las. Nesta edição de Carmilla, a editora também adicionou algumas ilustrações da época, então sinto orgulho de tê-la de qualquer forma.
Marquei no Skoob a leitura como regular, mas ainda assim, recomendo, sobretudo aos fãs de vampiros, para conhecer as bases da obra de Bram Stoker e ter uma maior proximidade com as lendas da época - que não somente passavam de boca em boca, mas tinham registros oficiais, de casos que ainda hoje são especulados, embora haja os que se tenha achado um senso comum. Vale, sim, à pena conhecer Carmilla.
Por Kyran
quinta-feira, 14 de março de 2013
[Resenha] Os Pequeninos Borrowers
| Capa nacional do livro |
Autora: Mary Norton
Editora: Martins Fontes
Páginas: 809
Depois de alguns anos de atraso, surgiu no ocidente um filme do
estúdio Ghibli, Karigurashi no Arrietty
ou O Mundo dos Pequeninos, no Brasil.
Naturalmente, decidi assistir e não me surpreendi quando me dei conta de que
era um filme sensacional. Sensível e delicado como poucos outros. Tudo muito
bem feito, desde os personagens até os cenários cuidadosamente detalhados. A
história era sobre uma família de seres pequeninos que viviam tomando coisas
emprestadas dos humanos grandões e, sobretudo, se escondendo a qualquer custo.
Ser visto por um humano era o maior desastre que poderia acontecer à vida de um
pequenino. Terminei o filme com uma dor enorme na alma, porque aqueles minutos
não haviam sido o suficiente ao lado de Arrietty, Pod e Homily, como se alguém
querido tivesse ido embora pra sempre, sem destino certo. Alguns dias depois da inevitável aceitação ter chegado, deparo-me com um livro. Sim, os pequenos
têm um livro: Os Pequeninos Borrowers,
de Mary Norton. Então, descubro que o livro tem 809 páginas e que a história
dos pequeninos é composta por vários romances que originalmente foram
publicados separadamente e que essa edição em português compreende a série completa.
Meu deus! Uma ideia não parava de pipocar em minha cabeça. "O Filme do
estúdio Ghibli fora baseado em apenas um dos livros!" Como não haveria de
ser de outro jeito, comprei o mais rápido que pude e os pequeninos voltaram
para mim.
A história é incrível e eu estava certo, o estúdio Ghibli usou apenas
o primeiro livro para subsidiar seu filme. Ao ler, quando vi que quase todo
o enredo do filme já havia ficado pra trás nas primeiras 100 páginas, minha
barriga esfriava e uma ansiedade quase angustiante de descobrir o que as
próximas mais de 700 páginas guardavam não me davam sossego. Então, as minhas
aventuras com os pequeninos continuaram para além dos 94 minutos que o estúdio
Ghibli me proporcionou.
O livro é dividido em seis partes. A primeira, chamada Os Borrowers, foi usada como base para o
filme do Ghibli. Nela, a família de pequeninos, Pod, o valente e ponderado pai,
Homily, a medrosa e comodista mãe e Arrietty, a destemida e revolucionária
filha, vivem sob o assoalho de um velho casarão. A casa deles, o maior orgulho
de Homily, é engenhosamente mobiliada e sua vida é tranquila e cômoda. Tudo o
que precisam pra viver eles tomam emprestado da casa sobre eles. E essa rotina
sempre lhes deu tudo o que precisavam, até que Arrietty deixa-se levar por seu
espírito de aventura, que não é pequeno, e descobre que o mundo é muito maior
do que eles imaginavam. Então, Arrietty acaba se envolvendo em uma série de
problemas que começam a perturbar a antiga harmonia de sua rotina sob o
assoalho. Toda a confusão culmina na necessidade de os pequeninos se mudarem e
isso, sobretudo para Homily, é algo assombroso. Sem outra saída, eles acabam
indo. Abandonam sua casa, os móveis que Homily tanto amava e todo o conforto
que tinham. Assim, eles partem do casarão para o terreno ao redor dele.
A segunda parte do livro, chamada Os
Borrowers na Terra, conta a primeira aventura dos pequeninos depois que
eles fogem de sua casa sob o assoalho. As coisas não são fáceis para eles
depois dessa mudança. Eles precisam se adaptar à vida no campo, sem seus
antigos confortos e a segurança que tinham. Para Homily, tudo aquilo parece o
apocalipse, enquanto para Arrietty, sua vida nunca fora tão emocionante. Eles
acabam por construir sua casa em uma bota velha e aprendem a viver segundo o
que a natureza tem para lhes oferecer. É nessa época que eles conhecem Spiller,
um pequenino selvagem e arisco, que vive fazendo aparições surpresas para
ajudá-los. A terceira parte, Os Borrowers
na Água, narra as aventuras da família borrower sobre um rio. Sim, eles são
capazes de navegar. Primeiro em uma chaleira velha e, por fim, em uma moita de
galhos no meio de um rio. Para quem imaginava que a vida fora do assoalho seria
impossível, até que essa família de pequeninos está se saindo muito bem. Na quarta
parte, Os Borrowers no Ar, os
pequeninos acabam por conseguirem voar e se envolvem, talvez, na maior
enrascada de suas pequenas vidas. Na última parte da saga dos Borrowers, Os Borrowers em Apuros, parece que a
família conseguiu encontrar um novo lugar onde se estabelecer, mas antigos
problemas continuam perseguindo-os. A última parte do livro trata-se de um
conto, Pobre Inocente, que é uma
espécie de extra e não acrescenta informações sobre Arrietty e sua família.
É impossível não se maravilhar com o nível de detalhes do livro. Mary
Norton descreve, com todo o cuidado, o cotidiano e todos os aparatos dos
pequeninos. E eles, por si só, já são fascinantes. O livro nos mostra como os
pequeninos reutilizam as coisas que tomam emprestadas. Botões, dedais, alfinetes,
tampinhas, agulhas e uma gama enorme de coisas que nós humanos perdemos o tempo
todo e nunca nos perguntamos onde diabos iam parar. Elas estão possivelmente na
casa de algum pequenino, servindo como copos, talhares, espadas, xícaras,
panelas ou qualquer outra coisa necessária para incrementar suas vidas. Com
intuito perfeitamente compreensível, há trechos bastante descritivos em todo o
livro. São trechos essenciais para a composição da história, que não seria a
mesma se o universo dos pequenos não fosse esmiuçado com tantos detalhes.
Inclusive, parte da diversão da leitura vem exatamente da curiosidade de
descobrir como a vida dos pequeninos é, como eles são capazes de sobreviver
apenas do que perdemos ou do que inocentemente nos tomam. A escrita de Mary
Norton sustenta muito bem a narrativa e é capaz de nos enlaçar em um turbilhão
de entusiasmo incomum. A vida dos borrowers é tão simples, tão pequena que nos
faz querer encolher. Seus problemas são tão grandes e simples, suas
necessidades tão ínfimas e instigantes, que a vida de gente grande parece
perder um pouco a graça.
Quando lemos as últimas páginas do livro, encontramos uma inevitável
amargura. Sim, logo depois da última página, já começamos a sentir saudade de
nossos queridos pequeninos. E até hoje não encontrei algo que fosse tão próximo
do nosso mundo e ao mesmo tempo compreendesse um mundo tão fantástico e
perfeitamente escondido sob nossos narizes. Penso em um imperturbável paradoxo.
A grandiosidade dos pequeninos e o quanto eles são capazes de serem maiores do
que nós, suas vidas são maiores, mas mais simples e inocentes do que as nossas
e isso faz com que sejamos menores, pequeninos num mundo de preocupações,
desejos e intrigas assustadoramente gigantes.
quarta-feira, 13 de março de 2013
[Resenha] A Viagem
| Edição do box da Editora Novo Século. |
Autor: Virginia Woolf
Editora: Novo Século
Páginas: 548
Eu sempre tive vontade de ler
algumas autoras clássicas, mas na maioria das vezes me dava preguiça em começar
algum romance. Porém, uma vez vencida a preguiça pude conhecer os universos
criados por mulheres marcantes, tais como Agatha Christie e Virginia Woolf.
Muita gente sabe que V. Woolf foi uma mulher de personalidade forte, e quem não
é tão familiarizado (assim como eu) certamente já teve a oportunidade de
assistir ao filme As Horas e observar
de perto um período peculiar da vida da autora. Contudo, pra poder falar um
pouco sobre ela e essa obra em particular, tomo a ajuda de Antonio Bivar,
membro da The Virginia Woolf Society of
Great Britain, que escreve o prefácio de A Viagem.
A Viagem marca o início da obra de Virginia Woolf, sendo o primeiro
romance a ser escrito pela autora. O livro demorou cerca de 10 anos para ser
escrito e publicado, e nesse período de tempo Virginia sofreu com a perda do
pai, casou-se e mudou-se para Bloomsbury, onde finalmente pôde dedicar-se
melhor à escrita do livro, que foi publicado pela primeira vez em 1915.
Entretanto, antes desse período Woolf já havia passado pelo sofrimento da morte
da mãe, da meia-irmã e também do irmão Thoby, o que desencadeou sérias crises
depressivas e tentativas de suicídio, resultando em um longo internamento após
a publicação do livro. Virginia iria ainda passar por diversos períodos
difíceis em sua vida até seu suicídio em 1941, e muito do que ela sentia e
pensava durante esses períodos pode ser claramente observado em suas obras.
Com A Viagem não é diferente. Através de um cunho autobiográfico, ela
vai contar a história de Rachel Vinrace – uma então inocente moça de 24 anos,
cujo pai é dono de navios cargueiros –, que parte em uma viagem a bordo de um
dos navios do pai, o Euphrosyne. Rachel
é educada sub a tutela de Helen Ambrose, irmã de sua falecida mãe, e passa a
conhecer as verdades da vida através da convivência com pessoas a quem antes
não estava acostumada. A viagem acompanha um pequeno grupo de pessoas, no qual
Rachel e Helen se incluem, que ao fim do séc. XIX zarpam do porto de Santa
Marina para desembarcar em uma villa
burguesa da América do Sul, situada “na boca do rio Amazonas”. Lá o leitor se
depara com muitas personagens, que se relacionam durante esse período em que
todas estão longe de casa.
Com eles somos levados a diversas
situações de gente que, sinceramente, não têm muitas preocupações na vida além
de matar o tempo e fofocar sobre a vida dos outros ali presentes. Piqueniques,
bailes, chás e passeios, sempre regados a uma boa conversa simples e sem
compromissos. Nesse cenário tropical, Rachel começa a se desprender das pregas
da sociedade tradicionalista da Inglaterra onde fora criada, aprendendo com
Helen formas mais modernas de viver. Ela encontrará com homens que a desejam
(Mr. Hewet), com mulheres a quem toma como exemplo a seguir (Clarissa Dalloway,
protagonista do romance Mrs. Dalloway
(1925), a quem Rachel conhece ainda a bordo do navio) e com figuras dispostas a
discutir filosofia e o modo de vida burguês (Mr. Hirst).
Virginia Woolf nos transmite o
processo integral de pensamento das personagens através da famosa técnica (hoje
assim chamada) do fluxo de consciência,
também usada por diversos escritores, como James Joyce, William Faulkner, ou
até mesmo os brasileiros Clarice Lispector, Guimarães Rosa e Hilda Hilst,
constituindo assim sua grande marca narrativa. Ela foge dos pensamentos de
Rachel para também nos mostrar com transparência os de todas as outras
personagens que se encontram na villa,
ou mesmo no grande hotel que lá existe, a refletir sobre qual é o seu espaço no
mundo.
Por fim, como um leitor iniciante
na obra de Virginia Woolf, considero A
Viagem um livro de grande importância pra quem deseja começar a ler a
autora. Ele nos apresenta sua forma de escrever e narrar – que difere muito do
que estamos acostumados a encontrar em autores mais recentes – e também, através
do constante teor existencialista, uma nova e peculiar forma de olhar e
refletir sobre nossas próprias vidas.
Por Jeff Pavanin
terça-feira, 12 de março de 2013
[Resenha] O Pequeno Príncipe
| Pequeno príncipe, pequeno planeta. |
Editora: Agir
páginas: 95
Eis-me aqui, preparado para falar
de um livro o qual me senti tentadíssimo a resenhar. O Pequeno Príncipe é uma obra que dificilmente as pessoas não
leram, ou não conhecem ao menos uma frase. Antoine de Saint-Exupéry é um autor
muito suave e vertical, capaz de atingir a profundidade mais oculta da nossa
alma invadindo-nos pelos olhos (e quando o livro termina eles ficam marejados
de tristeza e alegria; uma bagunça). Esta obra se torna signo da pureza e da
“magesticidade” que a infância tem, e já que a mais imortal das frases é a da
raposa: "tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”,
Exupéry tem uma grande responsabilidade nas costas por nos capturar com a sua
simplicidade.
Trata-se de um principezinho que
vive em outro planeta da galáxia, que na verdade é um asteroide nomeado, pelos
homens da Terra, como B 612. Lá o príncipe vive sozinho, o espaço é pequeno e
ele ama o lugar onde vive. Cuida da terra e meticulosamente livra-se das
sementes de baobá, pois elas seriam o fim do seu lar, se as suas gigantescas
raízes entranhassem pelo chão e vazassem o planeta. O principezinho dos cabelos
dourados planta uma rosa de estimação e com ela conversa, tenta tirar dela os
seus temores, reconhece a sua vaidade enquanto flor e a ampara em todas as suas
necessidades.
Antes de conhecermos o planeta e
a rosa do principezinho, nos deparamos com o narrador da história; um aviador
que fora, pelos adultos, desmotivado do desenho e da pintura ainda na infância,
contando-nos o diálogo que teve com o menino em um pouso forçado que fez pelo
deserto. “Desenha-me um carneiro?”, era o pedido que o príncipe fazia para ele.
E depois de suas inúmeras tentativas frustradas, desenha uma caixa e diz que o
carneiro está lá. Finalmente ele se contenta e fica feliz. E é aí que o nosso
narrador descobre que ele é um menino que “veio do céu”.
A meu ver, o menino-príncipe
carrega consigo o potencial para despertar as verdades das pessoas. Quando ele
visita outros planetas, se depara com outras pessoas e contesta a razão de
serem e de existirem daquela maneira. Um rei ganancioso e que se vê superior a
outras pessoas, mesmo morando em um planeta tão minúsculo quanto ao seu. Um
planeta também pequenino onde mora um vaidoso. E este sempre vê as outras
pessoas como seus admiradores e quer ser sempre o centro das atenções, ser
admirado; o príncipe conversa com ele, ou melhor, tenta conversar, mas o
vaidoso não o dá ouvidos. Os vaidosos não escutam coisas que não sejam elogios.
O príncipe ainda encontra o
planeta de um bêbado, de um homem de negócios, de um acendedor de lampiões e de
um velho que escrevia livros grandes. O bêbado é um paradoxo, porque sofre as
mágoas bebendo e bebe porque sofre as mágoas; o homem de negócios vive para
negociar e não o contrário. Diz-se o dono das estrelas e as conta
incansavelmente, para ser ainda mais rico e comprar mais estrelas; o acendedor
de lampiões é um seguidor compulsivo das regras. Ele se abdica de sua vida para
se dedicar ao regulamento de acender e apagar o lampião. Os dias só duram um
minuto, então ele é encarregado do “acende-apaga” sem descanso; o velho que
escreve livros grossos é um geógrafo e ele não sabe nada sobre a sua terra,
sobre o seu mundo porque afirma ser importante de mais para sair como um
explorador. Talvez se representasse com a teoria sem a prática. Como podemos
descobrir verdades se não a buscarmos nós mesmos?
Entendo que estes planetas em que
moram são pequenos porque o ego destas personagens talvez seja grande demais,
elas estão sempre em busca de algo antinatural que muitas das vezes não tem
sentido algum. Então se pensarmos deste ponto nós afirmaríamos: “Mas o planeta
do príncipe é pequeno. Isso significa que ele também é egoísta”.
Creio que o principezinho
representa a simplicidade e a inocência e por isso a pequenez do seu lar é na
verdade o contraste de todos os outros planetas apresentados acima! Talvez
Saint-Exupéry nos tenha mostrado que nem sempre o que é pequeno é simples, e
nem sempre o que é simples é necessariamente pequeno, o que é curioso para um
livro tão pequenino, porém infinitamente gostoso.
Não teríamos um pouco de cada “homem de pequeno planeta” em nós? Nossas
manias de grandeza não fazem o mundo ficar pequeno demais para duas pessoas?
Finalmente, o príncipe vai ao
sétimo planeta e este é a nossa Terra! E indico esta como sendo a melhor parte
do livro todo. Caso o leitor não tenha ainda desfrutado, espero que leia, pois
nem me arrisco a tentar resumir aqui uma obra de arte tão linda. Se o fizesse
quebraria com certeza a poesia que existe em cada linha.
“Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu
começarei a ser feliz.”
Descubro o paradeiro da minha
felicidade toda vez que me lembro de ter lido “O Pequeno Príncipe”. É como se
ele viesse me visitar sem hora marcada. Sem hora marcada para ser feliz.
Por Leandro Lourenço
Por Leandro Lourenço
segunda-feira, 11 de março de 2013
[Resenha] O Castelo no Ar
Autora: Diana Wynne Jones
Editora: Record
Páginas: 304
Minha leitura de O Castelo no Ar, de Diana Wynne Jones,
foi um tanto peculiar. Ela aconteceu em dois tempos e isso fez toda a
diferença. Quando decidi, pela primeira vez, pegar o livro para ler acho que me
precipitei. Eu não dava muita importância para a leitura e praticamente só lia
quando alguém se atrasava e eu precisava esperar, então o livro era meu passatempo.
Cheguei até a apelidá-lo de "O livro da espera sem fim". Dessa primeira
vez o livro não me cativou. Primeiro pelo clima aladdinesco da história que não
é dos meus preferidos. Achei a história maçante, o ritmo capenga e os
personagens desagradáveis. Eu desgostei tanto que já estava pronto para incluir
Diana à gama de escritores com ideias incríveis, mas que renderam livros ruins.
Afinal de contas, Diana é a autora do livro em que foi o baseado o espetacular O Castelo Animado, do estúdio Ghibli; de
uma série Os Mundos de Crestomanci e
de outros tantos livros ainda não traduzidos para o português. Sem dúvida,
devia haver algum talento em Diana, mas talvez ela houvesse consumido todo esse
talento criando O Castelo Animado.
Pensando assim e completamente desmotivado, larguei o livro mais ou menos com
um terço lido. O marcador ficou lá naquela página por mais de um ano, até que
alguma força sobrenatural (ou natural), fez com que eu resolvesse dar mais uma chance,
a última, para O Castelo no Ar.
Além de toda a vibração
sobrenatural, havia um amigo que vivia dizendo que Diana Wynne Jones era
incrível. E que não era possível que eu, um apreciador de coisas fantásticas e
malucas, não gostasse de O Castelo no Ar.
Enfim, peguei o livro, depois de um ano trocando olhares desconfiados com ele,
tirei o marcador e recomecei. Estava iniciado o segundo tempo. Embora o ar
aladdinesco ainda continuasse me incomodando, logo nas primeiras páginas já
senti uma conexão melhor com o livro. É claro que eu não admitiria, já nas
primeiras páginas, que eu estava enganado, quando comecei a lê-lo pela primeira
vez. Contudo, alguma coisa já me dizia que não haveria outro jeito. O livro é
realmente muito bom. Talvez, fosse o leitor que estava sem talento pra leitura,
talvez fosse a falta de investimento temporal. Antes mesmo da metade do livro,
já estava completamente consciente da injustiça que havia feito e confesso que
até mesmo todas aquelas coisas do Aladdin começaram a me parecer um pouco mais
charmosas.
O livro conta a história de
Abdullah, um mercador de tapetes, que tem sua vida transformada, quando compra
um tapete mágico por uma pechincha. Ele é um rapaz sonhador que, apesar de
todos os infortúnios familiares e pormenores cotidianos, fantasia o mundo a sua
volta e até mesmo seu passado. E para ele, seu passado inventado faz muito mais
sentido do que sua realidade. Subitamente, tudo o que Abdullah imaginou se
aproxima da realidade e aos poucos, sonho e realidade, começam a se tornar um
só. Tudo isso através do tapete mágico e suspeito. O tapete acaba por levar
Abdullah, enquanto estava dormindo, a um jardim suntuoso. E lá ele conhece sua
princesa, Flor da Noite. Esse encontro desencadeia uma série de acontecimentos
que se desdobram na grande aventura da vida de Abdullah. Aventura que parece
ser maior do que sua própria imaginação. Ele conhece um gênio amalucado e
irreverente que realiza desejos com uma malícia inacreditável. Conhece um
viajante misterioso e um país distante. Encontra bichinhos de estimação nada
convencionais e algumas dúzias de princesas.
A história de O Castelo no Ar se passa no mesmo
cenário que O Castelo Animado e eles
até mesmo compartilham alguns personagens. Cronologicamente, O Castelo no Ar vem depois de O Castelo Animado e ainda há mais um
livro desse universo já traduzido, A Casa
dos Muitos Caminhos. Arrisco-me a dizer que O Castelo no Ar não deve nada ao seu antecessor. É uma história
surpreendente com uma dose acertada de loucura e impregnada de magia. E é a
magia de Diana Wynne Jone que encanta. Não há fórmulas, nem rigidez, nem muita
lógica na magia. A magia é caótica como a própria natureza. Há um pouco de
magia em quase qualquer coisa e nem tudo é o que parece, porque num instante
pode deixar de ser ou se tornar outro. A magia é imprevisível e penso que a
magia não poderia ser de outra forma.
A jornada de Abdullah está
repleta de situações divertidas que exemplificam o talento inquestionável de
Diana. Aos poucos, ela vai nos apresentando a personagens caricatos em
situações improváveis, mas que parecem tão humanos e possíveis quanto um mundo
mágico permite. O próprio Abdullah é uma figura deliciosa, que no início, pode até parecer um pouco vaidoso, mas que se
transforma e a cada página descobrimos sua esperteza que concilia inocência
desmedida à coragem de um sonhador. Há todas as princesas com suas
personalidades e trejeitos e aparências. Há o castelo com toda sua magnitude
celestial. Por fim, há personagens memoráveis, como Sophie e Howl.
Apesar de toda a criatividade e
do cenário fascinante, O Castelo no Ar não se faz grande apenas por isso. A
escrita de Diana é igualmente encantadora. As palavras eficientes quase
exageradamente escolhidas delineiam com exatidão o universo que se mostra e ao
mesmo tempo se esconde. Há um equilíbrio espantoso em todo o texto. Ao passo
que o cenário nos é revelado e segredos são esmiuçados, mais e mais surpresas
surgem. Os diálogos são dinâmicos e muito bons, sobretudo as falas de Abdullah,
que não hesita em massagear o ego de quem lhe convém.
Por fim e não poderia ser de
outro jeito, O Castelo no Ar é uma
leitura recomendada a todo amante de fantasia. Desculpo-me por toda e qualquer
maldade que eu tenha dito sobre esse livro. Foi um lapso de inaptidão
literária. Não se engane, como eu me enganei, caso o clima aladdinesco não seja
o seu preferido, há muito mais nessa história do que tapetes, gênios e areia,
há magia, magia de verdade.
Por Fillipe Gontijo
Por Fillipe Gontijo
domingo, 10 de março de 2013
[Saldo] Semana #1: de 04 a 10 de março
Olá, olá! Essa é a nossa primeira semana de blog e ainda estamos nos acostumando com essa vida. Nós vamos ter o costume de postar a cada domingo uma lista de tudo o que foi escrito no blog, como um saldo semanal, pra que você não perca nada. Então, vamos ao saldo da primeira semana:
• A Chave para Rondo: http://goo.gl/iKD4F
• Wolf Hall: http://goo.gl/AiOf4
• A Incrível História de Henry Sugar e outros contos: http://goo.gl/SySGg
• O Nome do Vento: http://goo.gl/E1Vn4
• O menino do dedo verde: http://goo.gl/PzTL8
• Os Lobos dentro das Paredes: http://goo.gl/GHgjp
• Clarissa: http://goo.gl/I03r1
• Leviatã - A Missão Secreta: http://goo.gl/wqm3f
• Mr. Punch: http://goo.gl/0E3TU
Amanhã estaremos aqui para dar início a segunda semana de vida!
• A Chave para Rondo: http://goo.gl/iKD4F
• Wolf Hall: http://goo.gl/AiOf4
• A Incrível História de Henry Sugar e outros contos: http://goo.gl/SySGg
• O Nome do Vento: http://goo.gl/E1Vn4
• O menino do dedo verde: http://goo.gl/PzTL8
• Os Lobos dentro das Paredes: http://goo.gl/GHgjp
• Clarissa: http://goo.gl/I03r1
• Leviatã - A Missão Secreta: http://goo.gl/wqm3f
• Mr. Punch: http://goo.gl/0E3TU
Amanhã estaremos aqui para dar início a segunda semana de vida!
[Resenha] Mr. Punch
| Mr. Punch |
Ilustrador: Dave McKean
Editora: Conrad
Páginas: 104
Mister Punch foi apresentado a
mim pela graphic novel de Neil Gaiman e Dave McKean, chamada A comédia
trágica ou a tragédia cômica de Mr. Punch, publicada no Brasil em 2010,
pela editora Conrad. Na verdade, nem mesmo fomos apresentados, logo nas
primeiras páginas já fui espectador do primeiro crime do espertalhão Mister
Punch. A estranheza e a bizarrice quase nos faz fechar o livro e considerá-lo
inapropriado para nossa idade, mas é impossível não confiar em Neil Gaiman. Ao
longo da história, contada pela voz de um garoto-homem, o pequeno espetáculo de
fantoches funciona como uma linha que costura as recordações que borbulham
desordenadamente. Lembranças que ganham novos significados a partir do presente
de nosso personagem e que estão sujeitas aos sentimentos e vontades da criança
que ele era e do homem que se tornou.
As cenas protagonizadas por
Mister Punch trespassam a infância do garoto e são apresentadas como elos para
as reflexões que indiretamente conectam as peripécias dos fantoches à vida do
garoto. Aos poucos e à medida que o protagonista percorre suas próprias
lembranças, percebemos o quanto a perda persiste em preencher a vida dos
homens. A efemeridade é o sentimento que nos acompanha durante a leitura e o
único elemento que escapa a ela é o Mister Punch. Isso nos leva a pensar sobre
o incontrolável poder de criação do homem, que mesmo sendo assolado pela
finitude de sua vida, é capaz de criar algo que sobrevive a morte de seu
criador e se torna maior do que ele. Os "professores", aqueles que
manipulam os fantoches do show do Mister Punch, parecem ceder um pouco de suas
próprias vidas para que o personagem continue vivendo. É interessante questionar
se os "professores" fazem isso de boa vontade, porque depois de
conhecer as artimanhas do Mister Punch, é possível imaginar que ele está por
traz disso tudo, como se ele obrigasse aos "professores" a lhe
emprestar alguma vida.
Nas primeiras páginas e como
cúmplice do quase abandono da graphic novel, está a estranheza da arte de Dave
McKean. É impossível resistir ao mundo desconjuntado e desconexo da graphic
novel. Suas imagens parecem tentar emular uma mistura de lembranças de épocas e
pessoas diferentes ou mesmo representar as várias vidas cedidas, pelos inúmeros
"professores", ao Mister Punch. Todos os quadros, cada um dos
elementos deles, parecem ter vindo de um universo diferente. Há um contraste
permanente entre fotografias e desenhos. Contudo, ao mergulharmos um pouco mais
e ultrapassarmos a estranheza superficial, enxergamos a maestria de um grande
artista. McKean consegue harmonizar elementos gráficos de categorias bastante
diferentes em uma narrativa visual estonteante e complexa. Tudo parece vivo e
pulsante, como se estivéssemos assistindo às recordações do protagonista
saltando de sua memória. Ao ler a última página, percebe-se que Mister Punch
não existiria de outra forma, senão pelas palavras de Gaiman e pelas imagens de
McKean.
Por Fillipe Gontijo
sábado, 9 de março de 2013
[Resenha] Leviatã – A Missão Secreta
Ilustrações: Keith Thompson
Editora: Galera Record
Páginas: 359 + Posfácio do autor
Você já deve ter se deparado com
o nome de Scott Westerfeld por aí. Ele é o escritor da saga Feios, que é lançada pela Editora Record
(selo Galera) desde 2010, e também de Midnighters.
Contudo, venho aqui para lhes falar sobre outra saga do autor, publicada em
terras tupiniquins em 2012, que tem como primeiro volume o livro Leviatã – A Missão Secreta. Se você leu
a série Feios já deve estar
acostumado com a escrita simples de Westerfeld, que usa de poucas palavras pra
expressar as ações e pensamentos das personagens. Entretanto, diferente de outros
autores que também se utilizam de poucas palavras, Westerfeld consegue ter
domínio pleno sobre o que escreve, não desperdiçando letras para caracterizar seus
cenários ou o teor psicológico das vivências de cada indivíduo. Assim, ele nos
leva a percorrer por uma narrativa steampunk
margeada por uma mitologia unicamente construída, em universo paralelo muito
parecido com o nosso.
É o início da Primeira Guerra
Mundial, e Aleksandar Ferdinand, príncipe do império Austro-Húngaro, está a
brincar com seus soldadinhos em meio a tesouras e pesos de papel, quando é
abordado por Otto Klupp, seu professor de mekânica,
que chega seguido por Conde Volger, seu professor de esgrima. Ambos lhe dizem
que precisam deixar a casa imediatamente e iniciar uma viagem às pressas em
meio à escuridão gelada da noite, seguindo instruções de seu pai, que se
encontra fora, em Sarajevo. Sem saber ao certo o propósito da fuga, Alek
obedece, ainda atormentado pelo fato de que é colocado a pilotar o andador
metálico que até então era proibido até de chegar perto. O andador metálico é
meramente um pequeno item do universo criado por Westerfeld, que dicotomiza a
sociedade em mekanistas e darwinistas.
Os primeiros seguem os preceitos
do Império Austro-Húngaro, que acredita que as máquinas e estruturas metálicas são
as invenções mais revolucionárias do mundo e que com elas poderão vencer a
guerra. Do outro lado estão os darwinistas
que, com a ajuda da genética avançada desenvolvida por um Charles Darwin
alternativo, criaram as bestas vivas mais incríveis, capazes de se locomover
por terra, água e também pelo ar, movidos a gazes naturais – como hidrogênio e
oxigênio, que servem de alimento a todas elas. Nesse segundo cenário
encontra-se Deryn Sharp, uma garota controversa e esperta que se disfarça de
garoto pra poder ingressar na Força Aérea Britânica com a ajuda do irmão, Jaspert.
Logo de início percebe-se que os dois protagonistas estão fadados a
encontrar-se na Leviatã, uma aeronave-monstro
darwinista que sobrevoa os ares
assustando a todos devido a sua peculiar aparência: a de uma colossal baleia
voadora.
A carência de palavras
descritivas do autor talvez seja proposital, pois as belas ilustrações de Keith
Thompson estão a todo o momento trazendo aos olhos do leitor lindos fragmentos
e cenas que retratam o fabuloso mundo criado por Westerfeld. Dessa forma, podemos
ver o Leviatã seguir viagem,
sobrevoando a Grã-Bretanha rumo ao Império Otomano, onde a missão secreta deve
se findar. É importante ressaltar a veracidade do subtítulo do livro, pois a “missão
secreta” continua sendo muito secreta através de toda a narrativa, não sendo nunca
revelada por completo. Sabe-se, entretanto, que a história em questão será
contada em uma trilogia, ainda sem data definida para o lançamento dos dois
últimos volumes por aqui. Por fim, deixo duas imagens que ilustram os universos
mekanista e darwinista e também um link para quem quiser conhecer mais sobre a obra do ilustrador.
Site oficial de Keith Thompson: http://goo.gl/6wydz
Por Jeff Pavanin
(clique na imagem para ampliar)
Site oficial de Keith Thompson: http://goo.gl/6wydz
Por Jeff Pavanin
sexta-feira, 8 de março de 2013
[Resenha] Clarissa
| Capa da Companhia de Bolso |
Editora: Círculo do Livro (edição lida)
Páginas: 194
Fiquei algum tempo decidindo se Clarissa
seria realmente a minha próxima escolha pra resenhar. Como esse é um dos meus
livros favoritos, fico sem palavras pra conseguir descrever bem o que se passa
nessa história. Eu poderia vir aqui e dizer que é simplesmente uma crônica sobre
o cotidiano de Clarissa, mas estaria mentindo, de certa forma. Veríssimo se
preocupa, sim, em contar a infância (ou pré-adolescência) da menina Clarissa
através dos fatos de seu dia-a-dia, mas não se esquecendo de espelhar aos olhos
dela as histórias de todas as outras pessoas que a cerca. A protagonista nos é
apresentada inicialmente a partir da perspectiva de Amaro, um músico recluso
que vive na pensão de Dona Zina, pensão esta que serve de cenário para a história
toda. O músico nutre por Clarissa uma paixão secreta, tomando-a como uma musa
para suas inspirações nos momentos de reclusão, quando toca seu piano.
Filha de fazendeiros, a menina foi à Porto Alegre buscando completar os
estudos, com o sonho de se tornar professora, e encontrou lar na pensão da tia
Eufrasina juntamente com outros entes que ali vivem, discutindo política, o
tempo e fofocando sobre a vida dos vizinhos ricos. Nesse ambiente triste,
Clarissa se depara com realidades que sua simplicidade infantil antes
desconhecia, tal como a infidelidade de Ondina a seu marido Batata, a difícil
deficiência do vizinho Tonico e o sofrimento de sua mãe, as lamentações da
viúva Dona Tatá, cuja pobreza contrasta com a abundância material dos vizinhos
da frente. Ainda vivem na pensão outras figurinhas, como o judeu Levinsky e sua
constante crítica à política atual e ao cristianismo e também o já citado
Amaro, o músico solitário e misterioso. A vida literalmente passa diante dos
olhos de Clarissa, que a observa e questiona, filosofando sobre a existência à sua
própria maneira.
Pra mim é maravilhosa a simplicidade com que Érico Veríssimo retrata o
cotidiano da pensão de Dona Zina, traduzida em frases simples que carregam um
tradicionalismo despreocupado, tal como se observa em algumas passagens:
“Ó
Belmira! Me traz um café bem gostoso. E anda ligeiro, meu bem, porque tenho o
que fazer.”
“Não
há dúvida: a primavera chegou. Os pessegueiros estão floridos, as glicínias se
debruçam sobre o muro, o menino doente já mostra no rosto magro a sombra dum
sorriso.”
Também não me passa batido o leve tom existencialista que Veríssimo
despeja em palavras para passar ao leitor exatamente o que pensam e sentem os
indivíduos que residem na pensão, tal como pode ser observado em alguns trechos
como:
“Nos
olhos do menino havia uma saudade impossível, a saudade de uma terra nunca
vista. Um dia – quem sabe? – um dia um vento bom ou mau passa e leva a gente.
Um dia...”
“Clarissa
entrega-se a novas reflexões... Os homens são maus. Criam os pintos, dão-lhes
de comer – farelo, água, milho. Eles crescem, ficam galinhas, andam pelo
quintal esgravatando a terra com o bico e com as patas, botando ovos, caçando
minhocas; e um belo dia – zás! – lá vem Sia Andreza e agarra os míseros
bichinhos, torce-lhes o pescoço e larga no chão um corpo mole que pinoteia, num
esforço desesperado pra não morrer.”
Clarissa aparecerá também em mais dois romances do escritor, Música ao longe e Um lugar ao sol. Este último ainda reúne personagens também vistas
em Caminhos Cruzados, romance mais
denso publicado logo após Clarissa, que
entrecruza histórias de muitas personagens no mesmo período de tempo em que
essa história acontece. Por fim, Érico Veríssimo é sempre uma leitura que será
recomendada por mim, e não é a toa que hoje ele é um dos meus escritores
favoritos. Entretanto, dessa leva de obras ainda me falta ler Um lugar ao sol, que prometo resenhar
também, assim como os outros citados. Comente!
Por Jeff Pavanin
Por Jeff Pavanin
Assinar:
Postagens (Atom)

