domingo, 31 de março de 2013

Resenha: O Conto da Ilha Desconhecida

Autor: José Saramago
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 64

Um homem vai até a porta do rei, bate e diz ao guarda que quer falar diretamente com ele. O castelo, cheio de portas (uma para obséquios, outra para petições e mais uma para as decisões), dificulta muito a possibilidade de que seu pedido seja atendido. Mas ele resolve prostrar-se em frente à porta, até que seu pedido seja atendido. “Que é que tu queres”, pergunta a mulher da limpeza, mandada pelos seus superiores. “Quero falar ao rei”, responde o homem. Depois de um bom tempo, o rei resolve ir atender a pessoa que tão atrevidamente resolveu o incomodar. Ordena que a mulher da limpeza abra a porta de par em par e ouve o homem lhe pedir um barco. Mas para quê um barco? Para ir atrás da ilha desconhecida! E se já não existem mais ilhas desconhecidas? Quem poderá dizer?

quinta-feira, 28 de março de 2013

Resenha: Terra Sagrada

Autor: Rose Tremain
Editora: Rocco
Páginas: 410

“O silêncio de dois minutos”. Esse é o nome do capítulo que abre Terra Sagrada, sétimo romance de Rose Tremain, e são esses dois importantes minutos que regem a grande temática do livro. Em fevereiro de 1952, a pequena família Ward se reúne, de pé e bem juntinha, na plantação de sua fazenda em Suffolk – zona rural no interior da Inglaterra – em sinal de respeito pela morte do rei Jorge VI. Abaixo de seus pais está a diminuta Mary, protagonista, com 6 anos, pés e mãos pequenos e um rosto redondo que, para sua mãe, lembra um girassol. Mais abaixo, ciscando, está a galinha d’angola de Mary, Marguerite, com quem a menina compartilha a estonteante descoberta que fez durante esses minutos de silêncio: ela não é uma menina, mas um menino.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Resenha: Roverandom

Autor: J. R. R. Tolkien
Editora: Martins Fontes
Páginas: 127

Roverandom pode parecer mais uma fantasia clássica, com espadas, dragões e anéis. Ainda mais que em sua capa temos um dragão repousando calmamente e, talvez, sobre um tesouro. Eu mesmo comprei o livro pensando nisso. Pensava que seria a aventura de alguma outra trupe de guerreiros e de um ou dois magos. É preciso dizer também que Roverandom é um livro muito pouco conhecido de um escritor muitíssimo popular. Qual o mistério desse livro obscuro? Se ele fosse tão parecido com a saga do anel, ele seria um pouco mais conhecido ou, talvez, por ser mais daquela mesma história, as pessoas tenham desprezado o coitado. Enfim, há outra informação importante. Tolkien escreveu essa história com o inocente intuito de divertir seus filhos e, naturalmente, ele consegue muito mais do que isso. Rover, o cãozinho que empresta seu nome ao livro, poderia ser um tagarela e petulante cachorro falante, como vemos em inúmeras outras obras de animais humanizados, mas a habilidade narrativa e a surpreendente imaginação do gênio da fantasia transformam uma fórmula comum, que combina um cachorro surpreendente e uma jornada insólita, em algo cativante e encantador.

domingo, 24 de março de 2013

[Saldo] Semana #3: de 18 a 24 de março

Boa tarde! Essa semana tivemos uma movimentação bem pequena no blog, com somente duas resenhas postadas e nenhuma parceria nova. Isso se deve principalmente as atividades cotidianas que consomem os resenhistas, como trabalho, faculdade e etc. Seguem os links para as duas resenhas dessa semana:

• O Incêndio de Troia, por Marion Zimmer Bradley -  http://bit.ly/163x8cm
• Os Amigos, por Kazumi Yumotohttp://bit.ly/WEMYbQ

Prometemos uma melhora na semana que vem e esperamos cumprir, ok? Aproveite o domingo e fique de olho no blog e também em nossa página no Facebook para atualizações. Abraço!

quinta-feira, 21 de março de 2013

[Resenha] O Incêndio de Troia

Autor: Marion Zimmer Bradley
Editora: Imago
Páginas: 517

Muita gente já deve relacionar o nome de Marion Zimmer Bradley à saga As Brumas de Avalon, talvez por ser sua obra de maior conhecimento. Contudo, a autora é dona de uma ampla gama de obras, que infelizmente não tem, hoje, o reconhecimento nacional que merece. Vários títulos escritos por ela nós podemos encontrar em estantes empoeiradas de qualquer sebo por aí, tais como os inúmeros volumes da série Darkover, que foram originalmente publicados nas décadas passadas e esquecidos no tempo em suas antigas edições. Felizmente, em 2010 a Editora Imago nos presenteou com a nova edição de O Incêndio de Troia, um volume compacto que traz os três volumes da saga: O Chamado de Apolo, O Presente de Afrodite e, por fim, A Destruição de Posêidon – em alguns países os volumes foram publicados separadamente.

Marion nos apresenta, no livro, muito mais do que a sua representação do cenário mitológico do mundo antigo, com um panteão de Deuses e Deusas pra todos os credos; ela nos conta a história de Kassandra, princesa de Troia, que abdica da vida de mulher submissa aos homens para dedicar-se somente ao sacerdócio. Durante sua trajetória, observa-se muito do que já pôde ser lido em As Brumas de Avalon, onde a protagonista Morgana também é uma sacerdotisa. Entretanto, os caminhos seguidos por elas são ligeiramente diferentes. Kassandra é separada de seu irmão gêmeo logo ao nascer, que é mandado ao monte Ida para crescer em segredo entre os camponeses. Ela, contudo, provida da Visão que os Imortais lhe ofereceram, estabelece um vínculo psíquico com o irmão Páris, podendo enxergar através de seus olhos, ainda que estejam separados por uma grande distância.

Após ser mandada para conviver entre as guerreiras amazonas, Kassandra, já mais velha, retorna à Troia decidida a entregar sua vida nas mãos dos Imortais, escolhendo a Apolo, o Senhor do Sol, como o merecedor de sua devoção. É nesse ponto da história que Páris também chega à cidade, fazendo com que o segredo sobre sua existência seja finalmente trazido a público. A partir disso, Kassandra começa a ter visões que prevêem a destruição de Troia, enxergando navios fantasmas na baía, além de fogo e morte. Tentada a avisar seus familiares e pessoas próximas, ela começa a ser considerada uma louca e portadora de maus presságios para casamentos e nascimentos, fazendo com que ninguém acredite em sua palavra. Quando o irmão Páris rouba Helena de Esparta e toma-a como esposa, os akaios, inimigos de Troia, iniciam uma guerra que perdura por muitos anos e por todas as próximas páginas do livro.

Esse resumo pode ter ficado um pouco confuso, mas tudo se deve (além da minha capacidade quase nula em resumir) à minuciosa narrativa de Marion Zimmer Bradley, que nos conta a vida não só de Kassandra, mas também de todos que fazem parte de sua história, com detalhes e muitos diálogos bem construídos. É importante ter em mente que o destino das pessoas e da cidade é sempre colocado nas mãos dos Imortais, que são considerados os grandes responsáveis pela guerra que é travada em terra. Também acho legal comentar que, assim como em As Brumas, é possível notar com extrema clareza o incessante feminismo que a autora emprega em sua narrativa, o que pode deixar a leitura um tanto pedante em algumas passagens. Contudo, isso não chegou a ser um empecilho real para mim.

Apesar de o livro conter pouco mais de 500 páginas, a leitura é complexa e particularmente lenta, fazendo com que o livro pareça ter quase o dobro disso. Algumas características da edição – como o diminuto tamanho das letras, o mínimo espaçamento entre as linhas e o grande número de palavras por página – facilitam essa lentidão. Entretanto, a autora tem uma escrita muito gostosa de acompanhar, pois prioriza os sentimentos e o processo de pensamento que levam às ações decisivas das personagens, a quem nos afeiçoamos facilmente. E, ainda que seu final não tenha me deixado completamente satisfeito, a ampla rede de acontecimentos foi capaz de me prender à leitura como poucos livros conseguiram, transformando O Incêndio de Troia no dono de uma das narrativas mais legais que pude acompanhar.

Obs: Não sou estudioso de mitologia, então não sei afirmar corretamente se os fatos narrados no livro correspondem ao que há na literatura mitológica mundial. Porém, nas minhas pesquisas pela internet pude ver que muito do que a autora escreveu está de acordo com o que é retratado na Odisséia e na Ilíada, os grandes poemas épicos de Homero. Ainda assim, não podemos esquecer de que o livro se trata de uma romantização, podendo reunir fatos deliberadamente modificados ou incluídos através da liberdade criativa da autora.

Por Jeff Pavanin